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Banalização da Complexidade

Revue du Vin de France, edição de abril. Coluna de Éric Riwer:

Le Figaro quer ‘acabar com a eno-complexidade’, a saber, o fenômeno pelo qual os franceses ficam complexados pela sua falta de conhecimento sobre o vinho. Segundo uma sondagem efetuada pelo Ipsos-Afvin, 60% dos franceses confessam não compreender nada sobre vinho.

Isto explica a constatação publicada por Les Échos em um artigo entitulado ‘O mundo do vinho faz sua pedagogia’. Gérard Bertrand explica: ‘É necessário propor códigos de leitura diferentes […] para tornar o mundo do vinho mais acessível’. Ele mesmo comercializa vinhos com nomes como ‘Viognier Voltigeur’ e ‘Syrah Canaille’.

Boa idéia ou furada? Eu sou a favor da inovação, mas permaneço surdo aos chamados imbecilizantes das sereias do marketing da tendência fun.

Paralelamente à redação desta coluna, tenho responsabilidades em uma escola de arte. Lá eu me asseguro de que todos os dias a demanda pedagógica exija uma mistura fina de rigor e de estrutura, enriquecidos com fantasia e criatividade. É um trabalho no fio da navalha, que demanda equilíbrio e exigência, mas em que a vertigem não está nunca muito longe. Querer reduzir o aprendizado de uma arte ou de um mundo complexo a noções simples que tocam a superficialidade me parece roubar no xadrez.

Não se deve banalizar um mundo rico, pleno de sentidos e de sensações. Ele deve permanecer um prazer. Como diz a jornalista Jacqueline Friedrich, ‘o mundo do vinho é talmente interessante que, quanto mais se aprende, mais tem-se vontade de aprender. O vinho abre todos os tipos de janelas’.”

Por coincidência – ou talvez não – três cartas da seção de correspondência da mesma edição respondiam a algum leitor que na revista anterior tinha se manifestado a favor de simplificar as etiquetas. Uma delas:”Eu gostaria de reagir à carta de Fulanô, que julga os vinhos franceses muito complicados. Reduzir o número de informações nas etiquetas é rebaixar a distribuição do vinho à de um produto de supermercado, sem se preocupar com o que o consumidor quer ou procura. Diga aos amadores que pensam que as etiquetas são muito complicadas que eles podem bater na porta de uma adega: eles terão as respostas às suas questões e encontrarão também um serviço real.”

Vou esperar pra ver se alguém vai comentar. Tem alguém aí??

  1. Thomaz Napole&atilde
    5 de June, 2007 at 06:55 | #1

    Acho (leigamente) que o dilema entre divulgação e banalização é inerente a qualquer tipo de arte, vinho inclusive. Sempre haverá esses dois riscos, o da vulgarização criminosa e o da elitização excessiva, obrigando qualquer artista a navegar todo o tempo entre Cila e Caribde.Arte não faz sentido sem apreciadores. Da mesma forma, um Château Rothschild magnífico que jamais será sorvido é tão inútil e triste quanto um Picasso abandonado numa granja italiana, ou quanto o sorriso de uma linda mulher asiática oculta sob uma burqa.Mas eliminar as nuances, os detalhes, as riquezas e os temperos de um vinho, livro ou poema é o primeiro passo para estragá-lo, com algumas exceções. Pouca gente neste mundo sabe fazer algo simples e bom. Difícil, difícil…

  2. Beda
    11 de June, 2007 at 10:53 | #2

    Thomaz, obrigado pelo comentário. Fico feliz em saber que os textos já estão sendo lidos (e pensados) através dos links de palácios alheios… Antes de tudo, penso que você tenha razão. É inevitável que haja simplificações, inclusive porque elas são necessárias para que aquele "produto" complexo seja aproximável, perceptível por alguém que ainda não possui elementos para compreendê-lo de imediato. Gostei da sua comparação (não tão óbvia para muitos) do vinho com a arte. O problema é que, na prática, muitos (ir)responsáveis pela divulgação do vinho – normalmente midiáticos – tendem a levar o tema para um dos extremos (assim como na arte propriamente dita, penso). É difícil fugir dos nossos preconceitos, mas a maioria gosta mesmo é de reforçá-los. Se quiser dar uma olhada em alguns textos bastante críticos, procure o Bacco e Bocca na seção "Outros Perípeces" e, quando estiver no Brasil, vamos ver se tomamos uma ou outra garrafa juntos.Um abraço, Bernardo

  3. Fernando Gurgel
    24 de July, 2007 at 19:35 | #3

    Sou contra a simplificação das etiquetas. Mesmo que as informações contidas nelas sejam demasiadas ou incompreensivas e sem importância para uns, para outros podem ser muito importantes, sem contar que essas informações são escritas de uma forma que deixam os rótulos, na maioria das vezes, mais bonitos e elegantes.

  4. Beda
    31 de July, 2007 at 22:55 | #4

    Bom, Fernandito, eu acho que é mais ou menos por aí… Talvez um incentivozinho ao consumidor comum não seja demais, através por exemplo de um contra-rótulo que indique com mais clareza do que se tratam os títulos, nomes e outras coisas nos rótulos mais obscuros… Fala sério: vinho alemão é quase uma prova de paciência, persistência e força-de-vontade mesmo para quem fala alemão!!! E muitos produtos franceses não estão muito longe disso não…

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