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Conselhos, vinho e ar fresco

Com uma semana para respirar e montar meu paper sobre Bordeaux En Primeur, finalmente consegui dar um pulinho e visitar a casa de um dos meus primeiros e mais queridos mestres do vinho, Gerson Lopes. Namorada a tiracolo (e ela com a câmera), garrafa de vinho na mão e vontade de ouvir muita coisa, corri pro refúgio dele nas montanhas assim que ele me disse que estaria por lá. Como sempre, o Gerson queria contar tudo de uma vez só e, claro, numa tarde só deu pra aquecer os motores e ficar querendo mais.

Munido de uma adega invejável (arquitetonica e enologicamente falando), o Gerson continua o mesmo que eu conheci através da Dulcíssima, ele mesmo doce e carinhoso, ansioso por compartilhar  com os outros vinho, histórias e o ambiente confortável que criou com esposa Alexa e a filhinha Júlia.

Os assuntos giraram sobre o vinho, é claro, mas de forma tão ampla quanto é possível nesse meio: mercado, rótulos, viagens, pessoas, internet, mais viagens, etc.

Muito bem regados, sem dúvida não ficamos de boca seca. Para aperitivar, começamos com um Don Giovanni Série Ouro 30 Meses, uma edição especial e limitada da vinícola de Pinto Bandeira, que me surpreendeu duplamente: primeiro porque não acompanho com o devido cuidado a produção nacional e não tinha consciência do cuidado que esta vinícola em particular parece dar à produção dos seus rótulos especiais; em segundo, pela cremosidade e pérlage fino do espumante que descansa por 30 meses sobre as lias. Minha impressão é de que o amadurecimento do vinho rendeu-lhe muito mais em textura (impressionante) que em aromas, embora o nariz seja intenso e com perfumes razoavelmente complexos.

Nessa foto quem se saiu bem foi o vinho...

Nessa foto quem saiu bem foi o vinho...

Enquanto beliscávamos cogumelos-rosa no alecrim, Gerson e Denise (a aparentemente indispensável assistente da casa) davam ordem ao prato do dia: codornas no vinho, recheadas com trufas uruguaias e devidamente escoltadas por um risotto de açafrão (sem muito sal, que é pra saúde não sofrer). No decanter, o que seria o vinho do dia: garimpo de um sommelier do interior de São Paulo com quem o Gerson mantém um bom contato, o Tauleto Rosso Rubicone 2001 aguardava tranqüilo, já que com a codorna iríamos aproveitar uma outra beleza. Vinho da Emilia Romagna, Tauleto é produzido com Sangiovese Grosso (teoricamente um dos melhores clones de Sangiovese, o mesmo Brunello de Montalcino na Toscana) e um 10% de Bursona Longanesi (ou Nerello Longanesi ou Negretto Longanesi ou Bursòn), uma variedade descoberta pela família Longanesi e oficializada somente em 2000.

Imponente, o Tauleto emanava riqueza e concentração aromática e convidava muito a beber, então não resistimos muito… enquanto a codorna acabava de dourar e não abríamos o delicioso Kaituna Valley The Awatere Vineyard 2000, me surpreendi com a sedosidade que conseguiram imprimir à quantidade alta de taninos do vinho e com o final longo, longo, longo… O Kaituna, Pinot neo-zelandês macio, suculento e saboroso, fez bonito diante da codorna e especialmente com o risotto, ainda que a harmonização não tenha sido perfeita. Perfumado, fácil de beber e característico da variedade, reforça o establishment de que PN fora da Borgonha é meio que uma especialidade da ilhazinha do pacífico, ainda que o álcool e a complexidade não sejam as mesmas…

No fim das contas, saí maquinando sobre os conselhos do Gerson, sobre as possibilidades e impossibilidades futuras e sobre como repetir confortos como esse na minha vida paulistana. Vida dura, hein?

Colaborou Jomar Brustolin, do blog QVinho, sobre a uva Longanesi.

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