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Imagine there’s no scores…

November 26th, 2008 Rabiscaí! Checa os rabiscos.

Há muito tempo, numa galáxia distante (cronologicamente, pelo menos, já que foi em Março de 2008), li no Winecast uns comentários do Tim Elliot sobre um post de um blog desconhecido pra mim (continua desconhecido até hoje), o Rockss and Fruit sobre um terceiro artigo (que aparentemente ninguém na internet conseguiu linkar – nem mesmo o Google!) de David Lillie, um reputado lojista nova-iorquino, sobre o sistema de pontuação. Ele começa assim:

“Quando a escala de 100 pontos para avaliar vinhos foi adotada por Robert Parker e subseqüentes escritores e publicações, pareceu ter um benéfico e estimulante efeito no cenário norte-americano do vinho. Consumidores que não tinham conhecimento e experiência, ou tinham suspeitas com relação ao mercado do vinho, podiam marchar confiantes loja a dentro e dizer “Vou comprar uma caixa de Château Cocôt, ele teve 91 pontos de Fulano de Tal”. O vinho se tornou uma bebida mais popular e aceitável nas casas e restaurantes norte-americanos e a imagem esnobe do agente de vinhos foi substituída pelos escritos mais populares de Parker, Tanzer e da Wine Spectator. A confortável, ainda que arbitrária, escala de pontos levou o consumidor norte-americano a partes desconhecidas do mundo; Gruner Veltliner se tornou a nova Pinot Grigio e produtores nunca-antes-conhecidos em regiões obscuras logo tinham importadores norte-americanos. Isso tudo é muito bom, eu suponho…” (leia o artigo na íntegra, em português)

Lillie passa, então, a argumentar contra a utilização de pontuações para “descrever” vinhos e é, de certa forma, escoltado por inúmeros leitores e bloggers de vinhos por todo o mundo.

A idéia não é nova, é claro. Praticamente todo apreciador experiente (e, em particular, todo vendedor de vinhos), já pensou em abolir, solicitar abolição ou ao menos questionar os sistemas de pontuação por aí.

Eu mesmo passo sempre muito aperto: no início (quando tudo era noite) me disseram – PONTUE! e eu comecei a rabiscar umas notinhas de acordo com as instruções. Em seguida, percebi o quanto eram incongruentes as notas, como muitas vezes um vinho me deliciava e resultava com nota baixa e outras não me agradava em nada ou agradava pouco, e vinha com notão.

Quando de fato comecei a estudar seriamente os vinhos, me dei conta de que o método que me estavam ensinando simplesmente não incluía pontuar os vinhos, mas sim classificá-los, ao final da degustação, por sua qualidade.

Tim, do Winecast, compara avaliar um vinho a avaliar um filme: enquanto para ele Quando explode a vingança,  de Sergio Leone, é um dos melhores western jamais produzidos, com técnicas cinematográficas de peso, para a esposa é um verdadeiro… porre. E ela não se importa nem um pouco em assistir pela quinquagésima vez Top Gun (essa maravilha da humanidade) pela tv.

Avaliar vinhos com pontos tem uma utilidade significativa, porém: dar uma nota possibilita relativizá-los e torná-los comparáveis entre si. Sigo defendendo, porém, minha posição de que notas são referências MUITO pessoais. O que para mim vale algo, vale em determinadas circunstâncias e de acordo com referências pré-estabelecidas, que alguém “de fora” não tem como julgar. Seria algo como pontuar os quadros e obras de arte, talvez??

Alguém aí dá menos de 100 pontos para o Picasso?

Alguém aí dá menos de 100 pontos para o Picasso?

Alguém aí dá menos de 100 pontos para um quadro de Picasso?? De que ponto de vista? Analogamente ao vinho, um especialista em pintura poderia avaliar um quadro:

  • a técnica de pintura é adequada? (depende da época, não?)
  • o uso das cores agrada? (com qual objetivo? decorar? assustar? impressionar? o quadro é alegre ou melancólico? representa uma viagem de ácido lisérgico ou um bombardeio da Segunda Guerra?)
  • o desenho e o traço são corretos? (esse rabisco aí, meu irmãozinho de 4 anos faz também.)
  • o quadro tem significado histórico? (quem ganhou a guerra é quem vai dizer…)

É certo que o público, ou os “tomadores de decisão” e “formadores de opinião”, criam standards que determinarão o que é “certo” e “errado” ou o que se espera deste ou daquele quadro/vinho/produto-da-capacidade-humana-e-da-realidade-com-que-estamos-em-contato. O problema, especialmente quando falamos de vinho (como em pintura), é que as possibilidades são, em absoluto, INFINITAS.

(Porque é que até hoje ninguém deu nota para pintura, hein?)

Desconsideremos as analogias e voltemos ao Bob (meu chapa, o Parker): pobre coitado, tem culpa de quase nada. O cara inventou uma forma simples, didática e acessível de dizer para as pessoas do que é que ele gosta mais (e ainda receber pra isso!), e acabou levando tapas a torto e a direito porque as notas tornaram-se referência única e obrigatória e as pessoas passaram a seguí-las burramente.

Pareço ambíguo? Peraí: já ouvi essa história antes! (A de seguir burramente). O que falta ao público do vinho não é nada de especial, de difícil de compreender ou de exclusivo a esse meio: falta senso crítico e opinião própria. E não estou falando de ignorar os especialistas, nem de dizer que “o que é bom é o que você gosta” (o que MUITAS vezes é uma grande MENTIRA).

Não é por nada complicado tentar entender porque é que o Bob (o mesmo), ou o Jorge Carrara (aqui no Brasil) deram 87, 95 ou 1112 pontos para um vinho na hora de escolher o que vamos comprar, especialmente se levarmos em consideração as anotações que, inevitavelmente, acompanham as notas.

Lillie disse que “mesmo uma descrição das qualidades de um vinho cuidadosamente escrita e que comida ele pode acompanhar, é rapidamente esquecida quando seguida por um número – mesmo que aquele vinho de 85 pontos possa ser perfeito com nosso jantar”. De fato, um belo CEM-ZÃO faz muito mais verão que um mero oitentinha (como qualquer estudante secundarista pode afirmar após apresentar o boletim ao papai), mas vamos ver o que dizem os próprios autores sobre suas notas:

Robert Parker:

80-89 Vinho acima da média a muito bom, com diferentes camadas de aromas e finesse e nenhum defeito aparente.
90-95 Vinho memorável, de excepcional qualidade e caráter.
96-100 Vinho extraordinário, de caráter profundo e complexo, um clássico. Vale a pena um esforço especial por procurá-lo, comprá-lo e consumí-lo.

Wine Spectator:

80 – 84 Bom: vinho bem feito, de qualidade sólida
85 – 89 Muito bom: vinho com qualidades especiais
90 – 94 Excelente: vinho de caráter e estilo superiores
95 – 100 Clássico: um grande vinho

Há uma doença sendo continuamente disseminada, a chamada febre-dos-90-pontos. Em todo o mundo e com muita força no Brasil, os vinhos que interessam são os vinhos de 90 pontos (e passa) e não os vinhos que atendam à demanda (financeira, de gosto, de estilo, de harmonização, etc.) das pessoas.

Sim, vinhos de mais de 90 pontos são ótimos. Eles foram bem-feitos. Eles agradaram muito aos críticos. Não, eles não servem para todos os momentos. Eles, muitas vezes, não estão prontos para beber. Eles custam caro.

Bom, me empolguei, escrevi demais e no fim das contas, resolvi bem pouco. Fundamental, nesta história toda, é lembrar que precisamos mesmo é provar e provar e provar de novo e desfrutar daquilo que temos à nossa frente (ou em nossa taça!) com o mínimo de pré-conceito ou preconceito possível. E saúde!

[P.S. de 09.01.09: Não deixem de ler o post O que o Bob diz, em que traduzo trechos do Parker’s Wine Buyer’s Guide que falam de como o Parker pontua os vinhos e os produtores.]

  1. 26 de November, 2008 at 21:13 | #1

    90 pontos pelo tema, conteúdo e didática do texto.
    Não dei 100 pq o texto ficou um pouquinho grande pra post, rs.
    abraço

  2. 27 de November, 2008 at 09:36 | #2

    Olha só, que salafrário! De fato, venho passando aperto com o blog e tenho um post sobre superficialidade e comprimento dos posts engatilhado.
    Abraço, Ro.

  3. 2 de December, 2008 at 17:19 | #3

    Relendo ainda outra vez, vou humildemente discordar do Rodrigo. Alguns posts DEVEM ser longos. Às vezes resumir deixa de ser sintetizar e vira sinônimo de comprimir.

    O tema é complexo, mexe com conceitos já enraizados e mrece mais do que um par de anotações.

    Nota 100.

  4. 3 de December, 2008 at 16:34 | #4

    Puxa, Helô,

    assim eu fico feliz! Existe vida inteligente lá fora!

    (Hehehe. Rodrigo, não desconsidero sua capacidade intelectual. Não muito. Hmmm. Deixa pra lá.)

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