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Uma proposta modesta; abandonar a escala de 100 pontos

November 26th, 2008 Rabiscaí! Checa os rabiscos.

Não era minha idéia utilizar um post pra publicar a tradução do artigo de David Lillie, mas me vi sem alternativa para fornecer o material original para quem ler meus rabiscos sobre ele, então aí vai:

“Quando a escala de 100 pontos para avaliar vinhos foi adotada por Robert Parker e subseqüentes escritores e publicações, pareceu ter um benéfico e estimulante efeito no cenário norte-americano do vinho. Consumidores que não tinham conhecimento e experiência, ou tinham suspeitas com relação ao mercado do vinho, podiam marchar confiantes loja a dentro e dizer “Vou comprar uma caixa de Château Cocôt, ele teve 91 pontos de Fulano de Tal”. O vinho se tornou uma bebida mais popular e aceitável nas casas e restaurantes norte-americanos e a imagem esnobe do agente de vinhos foi substituída pelos escritos mais populares de Parker, Tanzer e da Wine Spectator. A confortável, ainda que arbitrária, escala de pontos levou o consumidor norte-americano a partes desconhecidas do mundo; Gruner Veltliner se tornou a nova Pinot Grigio e produtores nunca-antes-conhecidos em regiões obscuras logo tinham importadores norte-americanos. Isso tudo é muito bom, eu suponho…

Hoje, porém, os amantes do vinho norte-americanos são melhor instruídos e não já não precisam tanto de serem levados pelas mãos em uma loja de vinhos. Há riqueza de informações disponível em segundos na web, incluindo material técnico e notas de degustação e opiniões de salas de chat e blogs de todo o mundo. A idéia de que qualquer indivíduo pode, ou deva, vincular uma pontuação numérica arbitrária a um vinho se tornou ridícula e desnecessária. (Sem mencionar que muitos vinhos são degustados após a trasfega ou durante a fermentação malo-lática ou logo após serem engarrafados…) Então falem-nos sobre os produtores e como eles trabalham no vinhedo e nas adegas, contem-nos sobre se você gosta do vinho e porque, mas vamos parar de insultar os produtores e o consumidor, com uma escala de 100 pontos direcionada comercialmente. Nós vamos vender o mesmo tanto de vinho e os escritores vão vender o mesmo tanto de reportagens e revistas, com avaliações muito mais realistas.

Alguém poderia argumentar que os vinhos produzidos em massa para o consumo diário ou vinhos que são criados para se encaixar num estilo internacional, ou ao gosto de um crítico, poderiam receber 87 ou 91 ou qualquer outra nota, sem excessiva injustiça. Mas mesmo com vinhos deste nível, uma pontuação não tem como colocar vinhos em seus contextos, o que é uma parte crucial de nosso proveito. Mesmo uma descrição das qualidades de um vinho cuidadosamente escrita e que comida ele pode acompanhar, é rapidamente esquecida quando seguida por um número – mesmo que aquele vinho de 85 pontos possa ser perfeito com nosso jantar.

O mais importante argumento contra o sistema de pontos está contido na dedicação e no trabalho duro de milhares de produtores, principalmente europeus, mas com um número crescente nos EUA, de quem os esforços em levar ao consumidor deliciosos vinhos produzidos naturalmente não podem ser graduados com um número. Poderíamos tomar como exemplo Catherine Roussel e Didier Barouillet do Clos Roche Blanche, em Touraine. O comprometimento deles com o cultivo orgânico não é uma ferramenta de marketing, como se pode ver passeando pelo vinhedo. Há flores para atrair insetos benéficos, plantas com raízes que combatem doenças do solo, outras plantas para enriquecer o solo ou competir com as videiras. A poda é curta para limitar o rendimento da maneira mais eficiente e, ao mesmo tempo, arriscada. A colheita é feita sempre à mão, fermentações ocorrem com leveduras selvagens e afinamento e engarrafamento são feitos com o maior cuidado com pouco ou nenhum acréscimo de sulfitos e filtração. Eles fazem, em anos bons e  ruins, deliciosos vinhos gastronômicos que são uma alegria de se beber, mas você não vai encontrar uma Mercedes em sua garagem – estamos na AOC Touraine e os preços são bastante razoáveis. Que pontos eles receberão por seu trabalho fantástico – 86 ou 88, talvez?? Catherine e Didier não estão fazendo provas em que eles erram 12 questões, não estão fazendo torradeiras ou TV’s que podem ser avaliadas de acordo com a qualidade de sua produção. Estão fazendo vinhos que devem ser desfrutados com comida, com amigos, e que se desenvolvem com o tempo (o Cot 1989 deles está uma beleza de beber) e que não deveriam receber uma pontuação.

Meus antigos empregadores tinham uma escala “Do CA*****” (começando com “Ruim pra Ca*****) que era muito mais divertida e tão precisa quanto a de 100 pontos. Que tal Adequado, Bom, Muito Bom e Excelente?”

Publicado originalmente em Chamber Street Wines

  1. 27 de November, 2008 at 08:50 | #1

    Olá!
    Qual a diferença de avaliar um vinho como "adequado, bom, muito bom, e excelente" ou "80-84, 85-89, 90-64, etc"? Na verdade transforma-se uma escala qualitativa em quantitativa… para mim dá tudo na mesma.

  2. 27 de November, 2008 at 09:25 | #2

    Concordo com você, Rafael. Esse é um questionamento que a maioria fez ao Lillie. Penso que a questão seja, como coloquei no post de debate, fazer refletir sobre o assunto e estimular as pessoas a tomarem conclusões próprias, mais do que o abandono de fato da escala de pontuação.

  3. 27 de November, 2008 at 09:30 | #3

    Oi Bernardo!
    Essa reflexão é sem dúvida positiva e deve ser sempre incentivada… eu mesmo venho pensando sobre isso e conversando com algumas pessoas à respeito! O post é muito bom nesse sentido.
    Obrigado por visitar o De Vinho em Vinho.
    Um abração.

  4. 27 de November, 2008 at 17:38 | #4

    Beda,

    Parabéns por iniciar essa discussão!

    Não tenho nada contra escalas numéricas, quantitativas para analisar a qualidade dos vinho, mas acho que quando utilizamos a base 100, um ponto quer dizer muito pouco, ou talvez nada.

    Se a escala fosse de 1 a 10, acharía mais justa e aceitável… as diferenças seriam mais perceptíveis, ou será que alguém consegue dizer com precisão a diferença que o analista sentiu para dar 87 pontos para um vinho e 88 para outro? Sem falar que alguns dão 92 pts para um vinho e outro analista dá 87.

    Além de toda análise ter o coeficiente "gosto do analista" implícita nela mesmo. Também tem os critérios que variam conforme o analista, uns concsideram o preço para analisar outros não, uns dão mais importância para o "meio de boca" outros para a carga tânica. Prefiro o ruim, aceitável, bom e muito bom.

    Acho legal a escala quantitativa quando falamos de um painel de julgadores (seis por exemplo) e se obtém um média entre eles. E quando a degustação é feita as cegas, aí o vinho é de fato analisado pela sua qualidade. Mas prefería, sinceramente, que a escala fosse de 0 a 10.

    Forte Abraço!

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