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California Dreaming

Chegando de 15 dias de viagem, após uma prova escabrosa – mas muito menos dolorosa do que o esperado – me dei conta de que o blog está abandonado há quase 3 meses (!!!!) e com infinitos rascunhos começados, além de uma série de degustações documentadas e uma semana na Itália para relatar. Mal dos novos tempos, não posso fazer mais do que me adaptar às possibilidades e começar a liberar o que já está pronto, até poder finalizar e incluir o que está no forno. Vamos lá…

Foi com alguma ansiedade que fui ao Ici Bistrô há algumas semanas [detalhe cronológico: a esse ponto, algumas semanas são exatamente um mês] para participar da degustação quinzenal a que fui intimado a comparecer (o tempora! o mores! me obrigam a beber!). O tema desta vez seria “Vinhos Americanos” e minha experiência com os EUA é reduzidíssima: além dos poucos que provei nos painéis do WSET (geralmente coisa barata como Blossom Hill e E&J Gallo e umas poucas coisas especiais, a la Frog’s e Stag’s Leap), tinha provado um Mer Soleil da Caymus há uns três ou quatro anos e um Opus One (que inaugurou este blog!) há dois.

O mercado brasileiro faz questão de praticamente ignorar os vinhos norte-americanos, em parte por puro preconceito, em parte pelos preços altíssimos: poucos importadores trazem pouca coisa que quase ninguém compra. Os vinhos cult californianos atingem preços estratosféricos mesmo comprados diretamente das vinícolas, graças às produções reduzidas e a alta demanda interna e, para que cheguem até nós, têm custos extra de transporte – existem praticamente dois fretes: um da costa oeste para a leste e um que traga tudo até nossos portos.

Fato é que, numa degustação cujo tema abrangia todo um país produtor (atualmente o número 4 em volume no mundo todo), praticamente TODOS os vinhos eram californianos, mais especificamente de Napa – à exceção dos Champagnes que abriram a farra, um vinho de Santa Cruz (ainda Califórnia) e de um Bordeaux para o jantar – e acho que isto quer dizer bastante sobre a percepção dos apreciadores sobre os vinhos de lá do norte.

California Map

Esse mapa muito bom eu roubei desse site bem ruinzinho: http://www.vinovixenz.com/

A Califórnia é responsavel por 90% da produção de vinho estadunidense e por 3 de cada 4 garrafas vendidas no mercado no país. Originalmente parte do México, teve como primeiras videiras viníferas as ultradifundidas Mission (País, no Chile e Criolla na Argentina), que foram a base da viti-vinicultura por ali durante muuuuuuuuuuito tempo. Muito. Muito tempo. Mesmo. A importância histórica (porque do ponto de vista organoléptico a uva é um zero à esquerda) é tão grande, que ainda existem vinhedos plantados hoje na região, basicamente para a produção de vinhos doces e de qualidade… duvidosa.

O início da virada deu-se no final do século XIX, quando a universidade do estado começou a investir em pesquisa e educação enológica em Berkeley e, depois, em Davis, hoje um dos principais centros de estudos de vitivinicultura do mundo, ao lado de universidades como Bordeaux, Montpellier (França) e Geisenheim (Alemanha).

Os estudos da universidade imediatamente surtiram efeito e já em 1881 as pesquisas indicaram que o Vale de San Joaquin, com seu clima mais quente, seria adequado para produção de vinhos de volume, enquanto os condados da Costa (Napa e Sonoma em destaque) produziriam vinhos de maior qualidade. Nesta época a filoxera já começava a destruir boa parte das plantações, obrigando os produtores a tomar decisões mais inteligentes quanto ao tipo de uva e aos locais de cultivo. Já se plantavam cerca de 300 variedades e 800 produtores vendiam seus vinhos a granel a engarrafadores.

O problema é que os anos seguintes não foram nada fáceis para o vinho nos Estados Unidos. Crise, crise e mais crise, permeadas por guerra, mais guerra e uma lei proibicionista que transformou o mercado em… campo de guerra (ou guerrilha?) empacou a produção durante quase cem anos,  de 1890, quando a filoxera atingiu o ápice e o mercado parou de comprar a 1970, quando um súbito interesse pelo vinho despertou-se no país e levou uma onda de crescimento a Napa e Sonoma.

É claro que a escalada que o Vale do Silício e Hollywood tiveram durante a década de 1980 não foram de má influência para a região, então de lá pra cá as coisas mudaram, ainda mais drasticamente. Para se ter uma idéia de como o vinho se tornou modinha por ali e cresceu absurdamente, vejam os números da extensão de áreas plantadas com Chardonnay:

pós-Proibição: 0 acres
1960: < 100 acres
1991: 20.000 ha
2001: 40.000 ha (mais que na França inteira)

Clima Peculiar

Do ponto de vista climático, a Califórnia é uma verdadeira colcha de retalhos: ao contrário do que a maioria espera, a variação na latitude influencia bem pouco o clima por aqui e é o Oceano Pacífico o grande interventor: a proximidade a ele e os obstáculos entre os vinhedos e a influência do gelado marzão (ê mairzão! nós é tudo minêro!) determinam a maior parte das condições climáticas por ali. Uma espécie de cordilheira costeira modera a entrada de ar frio terra a dentro – a exemplo do que acontece no Vale Central chileno – e onde há baixios e aberturas há grande entrada dessas massas de ar refrescadas pelas correntes oceânicas.

Napa e Sonoma, as regiões mais renomadas e de onde provêm os vinhos mais finos, são claramente influencidas pelas neblinas matinais, sendo que as áreas mais ao sul são, em geral, mais frias e as mais ao norte razoavelmente mais quentes. Uma notável exceção ao esquema da proximidade é o já mencionado Vale de San Joaquin que, justamente por causa das montanhas, encontra-se isolado das correntes frias e é, ao contrário, considerada a região vinícola mais quente e ensolarada DO MUNDO.

Continua… (ai ai…)

  1. Mo
    23 de June, 2009 at 07:31 | #1

    Interessante saber que os vinhos… californianos (tive a tentacao de escrever americanos, mas 'what the hell!') sao carissimos no Brasil. Aqui na Inglaterra eles sao os de melhor relacao custo-beneficio que se pode encontrar. Por £5, compra-se um excelente Gallo no Tesco.

    • 23 de June, 2009 at 10:15 | #2

      Cir,

      tenha em conta que vinhos do nível de Gallo e Blossom Hill estão na base produção e são, relativamente, baratos. SE chegassem ao mercado brasileiro, não seriam exatamente caros, mas o público não os reconhece como boas possibilidades de compra. De fato, imagino que eles não tenham como competir com vinhos argentinos e chilenos em custo/qualidade aqui no Brasil…

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