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O perigo da imodéstia

 

"Champagne nunca será destronado. Presumir fazê-lo é certamente loucura." - Richard Hemming
“Champagne nunca será destronado. Presumir fazê-lo é absoluta estupidez.” Richard Hemming

Jancis Robinson publicou hoje, em seu site, um artigo de seu colaborador Richard Hemming sobre os espumantes ingleses e a polêmica declaração – com mais de 150 anos!!! – de um de seus produtores afirmando como “muitos bons juízes de vinho foram iludidos por meu vinho e pensaram ser superior ao melhor champagne que já beberam em suas vidas”. Obviamente, ele não estava simplesmente “viajando” na história: a questão é que constantemente os vinhos espumantes ingleses são comparados – pelos próprios ingleses, é claro – com os clássicos da Champagne, com o intuito de mostrar o quanto é possível fazer vinhos iguais ou até melhores que os mais tradicionais espumantes do planeta. Faz pensar em algum outro país??

Lendo o artigo na íntegra, voltei comparar a situação dos vinhos ingleses à dos brasileiros:

– a área de produção é nada-tradicional
– a qualidade dos vinhos vem melhorando com as mudanças climáticas, os avanços tecnológicos e o desenvolvimento técnico dos produtores
– a maior força do país está nos espumantes
– algumas pessoas insistem em dizer que ali estão “os melhores espumantes do mundo depois da Champagne”, pra não dizer “os melhores espumantes do mundo em potencial”, pra não dizer “os melhores espumantes do mundo”

Penso que a parte mais importante e construtiva do debate sobre o assunto tenha sido abordada com precisão por Hemming: a insistência em comparar os produtos ingleses – como os brasileiros – com Champagne é altamente danosa para os próprios produtores e seus vinhos: “Primeiramente, como ponto de argumento, atrai tanto desprezo quanto gera orgulho profissional. Muito mais perigoso, porém, é que eclipsa uma identidade única dos espumantes ingleses”.

Notem que Hemming, como eu, não é contra a produção nacional – de lá, como daqui. O argumento dele é que, justamente, se produza algo característico da região e que crie inclusive uma demanda de mercado adequada e exclusiva – o famoso “unique selling point” do marketing.

“Considerem o seguinte”, diz Hemming, ” os mais bem sucedidos vinhos são aqueles que carregam uma identidade forte e unificada. Chablis, Margaux, Sauvignon de Marlborough, Sémillon de Hunter, todos nomes familiares que consideramos com tanto carinho, porque oferecem algo particular, algo não-replicável em outro lugar. Enquanto isso, as propostas mais fracas são aqueles em que os vinhos produzidos poderiam ser feitos em um sem-número de lugares.”

Hemming dá exemplos de potenciais fracassos comerciais, que perderiam seu mercado facilmente assim que qualquer outro produtor pudesse batê-los no preço sustentando seu estilo “sem lugar”, enquanto cita o Prosecco, claramente fora da disputa com o Champagne, como um imenso sucesso internacional. “O espumante inglês precisa ter sua própria identidade. Mesmo que seja feito à imagem do champagne, deve aspirar a definir a si mesmo através de diferenças, não similaridades.”

Sem dúvida nenhuma, tem havido pesados investimentos por parte dos produtores nacionais – replantio, pesquisa, consultorias internacionais, equipamento de primeira, etc. e, embora eu tenha visto os preços cederem aqui e ali, ainda me é um tanto difícil assimilar os custos desses produtos e suas características, tão obviamente replicantes do que existe lá fora que é praticamente impossível não fazer comparações.

Às vezes, tenho a sensação de que nossos conterrâneos estão tentado obter de imediato o lucro desses investimentos, que deveriam ser feitos para gerar resultados ao longo de décadas. Enquanto isso, o que está dentro da garrafa, embora tenha grande valor para a indústria nacional e seja significativo de seu desenvolvimento, raramente condiz em qualidade e características organolépticas com os valores nas etiquetas.

3 rótulos que me surpreenderam recentemente, pela qualidade, mas também pelo custo
(valores aproximados no mercado):

Cavalleri Chardonnay 2008 – R$22 – http://www.cavalleri.com.br/

Angheben Gewürztraminer 2008 – R$29 – http://www.angheben.com.br/

Cordilheira de Santana Chardonnay Reserva Especial 2005 – R$45 – http://www.cordilheiradesantana.com.br/

(São todos brancos! Coincidência??)

PS: Já viram que “Prosecco” vai virar Denominação Protegida?? Já nem me coço mais com os (dois) produtores nacionais que insistem chamar seus espumantes de Champagne. Vamos ver se os que fazem “prosecco” vão adotar a legislação e chamar seus vinhos de “Glera”, o nome da uva no Friuli, que o governo italiano está propondo para quem estiver fora da área Prosecco DOC…

  1. Jandir Passos
    13 de August, 2009 at 22:04 | #1

    Artigo muito lúcido e realista.
    E muito esclarecedor também.
    A questão fundamental é: TIPICIDADE !
    Quer isto dizer que o Brasil não tem que copiar ninguém, até pq terroir não se copia, e sim descobrir sua tipicidade, e parar de fazer comparações descabidas.

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