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Degustadores e Amadores, Epifanias e Pontuações. Sempre as pontuações.

December 8th, 2009 Rabiscaí! Checa os rabiscos.

GradesVenho lendo aos poucos os artigos do livro “Questions of Taste”, uma coletânea de reflexões sobre os mais variados temas do mundo do vinho com um enfoque filosófico, mas com alto potencial de aplicação prática. Esta noite, fiquei feliz em descobrir algumas que me esclarecem ainda mais o problema das pontuações.

Barry Smith, o organizador da coletânea e autor de alguns dos artigos, discorre em um deles sobre a subjetividade da prova e, em especial (ao menos para mim) sobre como as mesmas são diferentes para um degustador experiente e um novato ou apreciador. Barry discorre bastante sobre o quanto céticos se tornam os “amadores” quanto às elaboradas, descritivas e, aparentemente, fantasiosas notas de degustação dos “especialistas”. Ele constrói bem uma base sobre a análise objetiva de vinhos para então dizer:

“Pode-se suspeitar que aqueles que não mostram interesse em cuidadosamente prestar atenção ao que estão bebendo ainda não tiveram aquele momento de parar o coração quando provam pela primeira vez um grande vinho: eles ainda não tiveram sua epifania.”

E então:

“Epifanias tratam do momento que nos muda profundamente e para toda a vida. Percebemos que os sabores dos vinhos têm dimensões e profundidade e podem se fixar na memória com uma poder e precisão talmente indelével que dias ou semanas depois uma imagem ou memória gustativa retornarão sem serem convidadas. (…) Um vinho comum não pode fazer isto por nós. Apenas um vinho cuidadosamente feito à mão pode levar a essas epifanias.”

E é aqui que tenho que discordar de Barry Smith, assim como do sistema de pontuações vigente. Ou melhor: da aplicação do sistema de pontuações vigente.

Sem a menor dúvida, o que pode finalmente fazer “cair uma ficha” é o momento em que somos capazes de perceber algo que nos deleita, que nos preenche de maneira talvez metafísica através de um meio tão claramente físico. E quando a ficha cai, nossa atenção é atraída pelo causador do deleite como nunca antes – e se nos permitirmos seguir o coelho, descobrimos um mundo inteiro dentro da toca.

E é aí que as pontuações se tornam um problema.

Críticos de vinhos, assim como degustadores e sommeliers profissionais, são (ou deveriam ser) analistas. Acumulam experiências e aplicam um método à degustação em busca de diferenças de estilo e qualidade entre os objetos de sua atenção, os vinhos. Logo, descrevem suas experiências de uma maneira que reflete o treinamento que tiveram: metódico, analítico. Em geral, lançam mão de analogias e metáforas de maneira que outros possam compreender sensações que, de outra forma, seriam intransmitíveis.

Por outro lado, o grande público – as pessoas que querem um taça de vinho no fim do dia para relaxar ou algo que possa tornar o jantar deles ainda mais agradável – vive uma experiência totalmente diferente diante do mesmo objeto. O que essas pessoas buscam são os momentos durante os quais estão, ocasionalmente, bebendo aquela garrafa. De acordo com Barry Smith:

“O degustador analítico e o novato estão fazendo coisas bastante diferentes. Não são as sensações gustativas imediatas ou genéricas de um vinho o que o primeiro está buscando. Ao contrário, ele guia sua atenção em direção a certos aspectos de sua experiência, selecionando alguns para um peculiar escrutínio.”

“A pessoa cética quanto as elaboradas descrições dadas pelos conhecedores de vinho pensa que tudo o que existe para se sentir é dado em uma sensação imediata. É só uma questão de como as coisas sabem [no sentido de ter gosto] para ele naquele momento.

As pontuações são uma forma bastante objetiva e clara com que um crítico – treinado, capaz de reconhecer as sutilezas que fazem um vinho “melhor” do que outro – pode transmitir ao público a sua opinião sobre aquele vinho. No entanto, o que o ritmo da vida urbana “moderna” e, acima de tudo, a máquina do sistema capitalista fizeram foi transformar as notas dadas pelos críticos em uma escala absoluta de qualidade, em que as considerações do autor sobre o vinho, sua origem, seus produtores e a situação em que considera que o vinho poderia ser melhor aproveitado são COMPLETAMENTE ignoradas.

Estou “chovendo no molhado”, especialmente se você acompanha os meus rabiscos nesse blog. Mas, vamos lá:

Nesta escala, vinhos de “75 a 80 pontos” são zurrapas imbebíveis e os de “80 e poucos” são medíocres drinks para festas e vernissages baratos, a que não se deve dar atenção. No topo da escala estão os belos “88 e 89 pontos,” os raros, caros e festejados “90 e 91 pontos” e os objetos-de-fetiche “92 ou mais pontos”.

Em geral, os pseudo-especialistas e os apreciadores comuns que tentam organizar suas degustações lançando mão de pontuações simplesmente descartam tudo o que está abaixo dos 88 pontos com total desdém. É comum que encontrem uma ou outra característica no vinho que lhes desagrada ou que a bebida no geral lhes cause prazer e, daí, dão-lhe uma nota aproximativa condizente com o que entendem ser “bom”, “excelente” ou “ruim”. Os mais atenciosos têm até mesmo o cuidado de, em sua superficialidade, classificar com os 88 pontos um vinho “tomável” ou “agradável”, acreditando fazer, com essa pontuação, jus à sua relativa qualidade.

O nariz de um milhão de dólares Robert Parker

O "nariz de um milhão de dólares" Robert Parker

[Não me entendam mal: não quero dizer que um vinho “tomável” não mereça uma pontuação equivalente ou deva ser descartado. Simplesmente considero que uma escala de pontuações mais ampla – digamos, 50 a 100 pontos, como a de seu proponente mais famoso, Robert Parker – e utilizada com algum método seja mais equilibrada e “justa”.]

Vamos voltar rapidamente ao texto de Barry:

“É através de uma experiência pessoal transformadora que cada um de nós vem a aprender sobre a grandeza do vinho.”

E não é possível ter uma “experiência pessoal transformadora” com um vinho de 82 pontos? 70? 85?

Quantas pessoas vimos provar um vinho absolutamente comercial, praticamente construído em laboratório para agradar ao paladar semi-genérico de quem ainda não se aprofundou no mundo do vinho e descobrir nele  pela primeira vez sabores que já conheciam em frutas, bebidas e até situações da vida?

Quantos litros de vinho semi-doce, ou excessivamente frutado, ou com boa dose de raspas de madeira muito tostada não levaram pessoas a buscar aprender sobre a “grandeza do vinho”? Não mostraram a amadores e iniciantes que “café”, “geléia de framboesa”, “manteiga” e “untuosidade” não eram viagens lisérgicas nem esnobices dos degustadores?

Em geral, vinhos com essas caraterísticas estão no espectro mais baixo das pontuações. São vinhos simples, muitas vezes imperfeitos do ponto de vista analítico, desbalanceados, mas acessíveis tanto financeira quanto fisiologicamente. Não são meus vinhos prediletos e, de fato, não são os melhores candidatos a causadores de epifanias, mas são os vinhos que meus avós bebem em casa, com os quais os meus amigos gostam de brindar e, sem a menor dúvida, foram os vinhos que me levaram a buscar o que há por trás da etiqueta.

Considerações finais:

– Inicialmente, eu fui contra as pontuações. Descobri, com o tempo, que o problema não eram as notas e sim como eram dadas e o que se faz com elas (leis? salsichas?).

– Ainda não desenvolvi um método de avaliação dos vinhos que me satisfizesse. Não sei se ou quando vou conseguir fazê-lo.

– Procuro evitar comunicar minhas notas em grupos heterogêneos ou em situações mais “subjetivas” que “analíticas”, justamente porque venho experimentando formas diferentes de pontuar e ainda não existe consistência nessas pontuações.

– Há dois denominadores comuns entre minhas pontuações, no entanto, que normalmente são o que causa mais espanto entre aqueles com quem as compartilho: elas são razoavelmente baixas e cobrem um espectro maior de pontos, diferenciando claramente os vinhos entre si pela qualidade de suas características.

  1. 8 de December, 2009 at 00:50 | #1

    ainda bem que minhas metáforas adquiridas na infância podem ser interpretas e ter alguma relevância por alguém pois é exatamente a forma mais simples e pura na hora que vou comentar com minha namorada aqueli que estou sentindo no momento e quer saber, ela entende bem e isso é o que importa, ou não?

  2. 8 de December, 2009 at 09:37 | #2

    Pra completar: eu que não consigo deixar de escrever… muito, muitas vezes, fico surpreso com o que a concisão consegue transmitir. O Luiz Horta trata do mesmo assunto em apenas um parágrafo, bastante eloqüente:
    http://blog.estadao.com.br/blog/horta/?title=resu

  3. dulce
    9 de December, 2009 at 19:27 | #3

    saudade, ber!

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