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O fantasma dos natais futuros


O fantasma dos natais futuros, ilustração de John Leech

No conto Cântico de Natal (que vocês podem ler na íntegra através do link, graças ao Google Books), Dickens conta a história de um homem que é visitado por três aparições que tentam fazer-lhe mudar sua atitude quanto à vida. A terceira delas, o Fantasma dos Natais Futuros, mostra-lhe como será o fim de seus dias. Pois o meu fantasma dos natais futuros tem nome: Richard Hemming, colaborador do jancisrobinson.com e aluno do programa Master of Wine. Gostaram do draminha?

Há alguns meses Hemming se inscreveu e foi aceito no programa MW, sob a tutela (e patrocínio) de ninguém menos que a própria dama do vinho. Seu trabalho, no site, é basicamente fazer relatórios sobre suas experiências: primeiro, uma colheita completa em McLaren Vale;  em seguida, um ano inteiro em um vinhedo inglês. Tem sido meu alívio e minha angústia ler, agora, sobre o que ele vem passando como “novato” no MW: alívio por ver que o que eu estou passando é isso mesmo (ele também fez o Diploma in Wines and Spirits e faz menções a ele, comparando-o com o MW) e angústia por ver o “fantasma dos natais futuros” me dizendo o que vai ser do que eu ainda vou passar, quando e se eu me inscrever no programa.

O Diploma é, oficialmente, um pré-requisito para ser aceito no programa de formação de Masters of Wine e o último dos degraus do sistema de ensino semi-oficial do mercado inglês de vinhos, o WSET (na verdade, existe um último nível, em paralelo, que é resultado de uma pesquisa aprofundada sobre um tema à escolha do estudante, que tem que defender o resultado diante de uma bancada de avaliadores).

Os ingleses, muito saxônicamente, não são fãs de aulas intermináveis e professores segurando a sua mão: os cursos são, na verdade, seminários de degustação e revisão de conteúdo, para os quais cada um deve se preparar da melhor maneira possível, sozinho. E isso vale desde o primeiro nível do WSET até o MW.

A maior dificuldade, para mim, ao menos, é encontrar um ponto de equilíbrio entre a quantidade de informações que eu preciso saber e a quantidade de coisas que eu preciso colocar no papel. As perguntas abertas nas provas são, em geral, muito simples – são as respostas o que se torna um problema: é necessário analisar todo o contexto em que está inserida a pergunta e fazê-lo ao mesmo tempo de forma sucinta e completa é quase um oxímoro, mas um requisito dos examinadores.

Ao ler nesta semana a parte 9 do “Diário de um Estudante do MW”, mais uma vez fiquei aliviado pelas vivências de Hemming. Na verdade, me senti inclusive reassegurado. O Diploma foi concebido para ser superado em dois anos de estudos e provas, com um ano extra para aqueles que precisarem se alongar (mais ou menos como o MW). Com ritmos aquecidos de trabalho e o casamento no meio do curso, não tive jeito senão adiar metade das provas para 2010 e descobrir que pode ser que minha experiência seja mais parecida com a de Hemming do que eu pensava… Alguém mais aí está suando com o Diploma? (ou o MW, já que estamos…)

Abaixo, a parte 9, traduzida meio às pressas para o português nos últimos quinze minutos.

‘Eu pretendo firmemente passar no MW no menor tempo possível.’
– Eu, Diário de um estudante do MW – parte 5, Dezembro de 2009

Se jamais as palavras de alguém foram ditas para depois serem engolidas, essas podem ser as tais. Seis meses depois de me inscrever no curso de MW, eu ainda estou apenas entendendo como dar conta da enormidade da coisa. Neste momento, tudo parece tão avassalador que estou seriamente considerando fugir para entrar pro circo.

Duas são as principais preocupações em minha mente: desenvolver uma técnica para responder às questões do exame e administrar a abundância de informação. As duas são relacionadas: os candidatos mais cheios de conhecimento podem (e realmente acontece) falhar no MW se eles não tiverem uma técnica de redação que analise a questão e construa um argumento lúcido. No entanto, um argumento lúcido que não inclua informações reais e detalhadas não irá passar, também.

Deixem-me elucidá-los: em que maneiras o negócio do vinho se diferencia do de outros produtos de consumo? Esta é uma pergunta de exame do ano de 2003. Para respondê-la adequadamente, você precisa discutir toda a cadeia do vinho desde a produção até o consumo. Você deveria compará-la com outros negócios. Deveria usar exemplos globais, então se mencionar os impostos como um ponto de diferença entre vinho e, por exemplo, refrigerantes, então você tem que dar exemplos de como o vinho é taxado em mercados contrastantes – e, preferencialmente, a comparação entre os impostos sobre refrigerantes nesses mercados também.

O marketing tem que ser coberto na resposta. Como o vinho é divulgado e como isso se compara com outros bens de consumo? Que exemplos de propaganda de vinho existem para dar suporte ao seu argumento? Como os budgets de marketing se comparam entre as maiores marcas de vinho e as maiores marcas da moda? E o que dizer do caminho até o mercado? O vinho é vendido em uma miríade de formas enquanto a maior parte dos bens de consumo são mais “diretos”. Ou não?

A fragmentação é o ponto chave: o vinho, num contexto global, não tem marcas dominantes. Mesmo as maiores marcas contam somente com uma pequena porção da produção do mundo. Existem outros produtos de consumo como esse? E o que “pequena proporção” quer dizer de verdade, do ponto de vista estatístico? E quando se trata de champagne, como esses dados são comparados?

Tudo isso deve ser feito em uma sala de exames, respondendo a três perguntas como essa em três horas e isso é só uma das provas: as outras – viticultura, vinificação e “questões contemporâneas” – não são menos exigentes.

Neste contexto, o problema é que não dá para ignorar nada. Todos os artigos publicados aqui, no jr.com, por exemplo, têm relevância. Eu não consigo me lembrar nem dos que EU escrevi, deixem estar os de todos os outros! Literalmente tentar aprender tudo é obviamente impossível, então eu preciso descobrir um sistema que seja viável.

Depois de seis meses, então, eu só consegue entender o necessário para que eu passe. O que não deu pra fazer ainda é conseguí-lo, mas vou tentar explicar minha estratégia (assim que eu consiga bolar uma) no próximo artigo do diário. Minha motivação se mantém firme, embora minha moral esteja admitidamente falhando. Tenho certeza de que não quero desistir. Completar o MW ainda é uma idéia menos assustadora do que virar um treinador de leões. Ainda.

Publicado originalmente em 11 de março de 2010, em http://jancisrobinson.com. Leia o artigo original aqui.

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