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O íncrivel Pinot Noir alemão que encolheu…

… na minha taça. Acreditem, é verdade. A cada vez que eu olhava a taça, havia menos vinho. Sério.

Em meio ao vai-e-vem das visitas a produtores pela Alemanha, conseguimos incluir no roteiro a (praticamente desconhecida no exterior) região de Ahr, no extremo norte, para que pudéssemos provar os vinhos de Pinot Noir que são produzidos em uma das áreas vinícolas mais setentrionais do mundo. Com a ajuda de Janke Zeltwanger, agendamos uma visita a um dos produtores de maior sucesso na região, que nos receberia para apresentar esse que é um verdadeiro paradoxo da viti-vinicultura.

Mapa: Adaptado de Deutsches Weininstitut

Com apenas 528 hectares de vinhedos (0,5% de toda a área nacional), o vale do rio Ahr (“Ahrtal” em alemanen linguen) está mais ao norte que as regiões alemãs famosas pela delicadeza (e, às vezes, falta de amadurecimento) de seus vinhos brancos. Além disto, como vocês podem ver no mapa, está consideravelmente mais ao norte das áreas de produção que ganharam reputação no país pela capacidade de amadurecer seus tintos e ainda assim tem 88% de seus vinhedos plantados com as variedades Spätburgunder, Frühburgunder e Portugieser, todas elas tintas.

A Alemanha é hoje a terceira maior produtora mundial de Pinot Noir ou Spätburgunder (a “Borgonhesa Tardia”, também em alemanen), com 11.660 hectares de vinhedos plantados com a variedade principalmente nas regiões mais ao sul do país: Baden (onde é A variedade mais plantada), Württenberg (onde as tintas dominam 70% dos vinhedos) e Pfalz. Isso quer dizer o equivalente à metade de toda a área plantada com Riesling, sem dúvida a rainha nos vinhedos alemães e reflete uma tendência crescente no país a voltar a se consumir vinho tinto nacional – desde a década de 70, o ápice da produção e venda dos infames brancos de garrafa azul, a área plantada com variedades tintas praticamente triplicou.

Sem a menor dúvida, as mudanças no clima ocorridas nessas últimas décadas determinaram que os vinhedos do sul da Alemanha pudessem amadurecer uvas tintas de maneira adequada para a produção de vinhos de qualidade, assim como foram significativos os avanços na compreensão dos processos de cultivo e produção. O vale do Ahr, no entanto, segue sendo uma exceção, graças a um mesoclima peculiar.

Seu histórico com variedades tintas, em particular a Spätburgunder, remonta ao século XV mas foi somente nos últimos anos que as condições climáticas e o solo fizeram com que uma das variedades de uva mais difíceis de se cultivar, mais temperamentais e, ao mesmo tempo, mais cultuadas pelos apreciadores de vinhos de alta qualidade se tornasse a estrela aí. O que nos fez duvidar da qualidade do vinho…

Chegamos meio atrasados, vindos correndo do Nahe pelas estradinhas sinuosas ao longo do vale estreito, espremido em alguns pontos entre duas paredes montanhosas. A altitude não é tanta: as montanhas mais altas chegam a apenas 300 m.s.n.m., mas as pendentes são inacreditáveis, atingindo 70° em alguns pontos. O solo é vulcânico, escuro e com uma característica importante: nos melhores pontos, é coberto de ardósia, que em muitos lugares se parece em muito com o xisto do vale do Douro – laminada, quebradiça ou já em pedacinhos. As montanhas protegem os melhores vinhedos dos ventos frios do norte e, em conjunto com o solo, funcionam como uma espécie de forno, mantendo a temperatura consideravelmente mais alta do que o esperado numa área que está localizada a 50°N de latitude (cara, as poucas horas que passamos em Ahrtal devem ter sido as mais ensolaradas e aquecidas de quinze dias de Europa).

Parcelas fatiadas à mão por um gigante contratado pelos produtores locais.

Nosso cicerone pelos vinhedos do Ahr parece um personagem dos quadrinhos: bonachão, risonho, de rosto redondo e bochechas rosadas, Werner Näkel nos leva para ver a área de produção e alguns vinhedos antes de provarmos os vinhos. Saindo de Dernau, onde estão sua casa, seu ligeiramente antigo winebar (o “Hofgarten”, de propriedade da família há mais de 200 anos) e sua adega de vinificação, subimos as encostas para encontrar paisagens estonteantes, como vocês podem ver nas fotos: os platôs com vinhedos parecem erguidos da terra por uma força sobrenatural, recortados geometricamente em inclinações muitas impossíveis de se trabalhar sem estar amarrado a alguma coisa. Entre eles, estão cerca de 12 hectares cultivados com mais de 80% de Pinot Noir por Näkel e suas duas filhas, ambas enólogas, que já são responsáveis por boa parte dos trabalhos de produção.

Obelix Werner Näkel, nosso cicerone em Dernau.

Näkel tem mais dois outros projetos com vinho, fora da Alemanha (além de algumas consultorias pelo mundo): a Quinta da Carvalhosa, em que, não sem motivo, faz um belíssimo tinto no Douro, em Portugal, em companhia de mais dois amigos vinhateiros alemães – Bernd Philippi, da Weingut Koehler-Ruprecht, em Pfalz, e o falecido Bernhard Breuer, membro-fundador da histórica associação Charta, no Rheingau.

Bom, vamos aos vinhos. Não bastando a língua do país ser quasen impoßível de nós entederr, a legislação e termos de rotulagem também são uma bagunça sem fim. Há termos legais, termos da associação VDP (dos produtores de vinho de qualidade), nomes de vinhedos, um escreve de um jeito, o outro de outro, desse jeito haja paßiência. Hora dessas eu tento explicar um pouco. Força:

Spätburgunder QbA 2008

Vinho “básico” da casa. Violeta pálido, muito jovem, com nariz fresco, típico da Pinot Noir, mostrando frutinhas de bosque, violetas e notas minerais. Na boca é muito equilibrado, fresco e saboroso, com taninos delicados e maduros e a nuance vegetal típica da variedade casada com fruta.

“G” Spätburgunder QbA 2008

O “g” é de “usado”, é claro. Você não sabia que se usado em alemão começa com g? Oras. O vinho é mais intenso, muito elegante com mais aromas minerais e defumados – provavelmente resultado do estágio em barricas (g)usadas. Fresco e mais volumoso, é carnudo, muito apetitoso. Disputa seriamente com Pinots do resto do mundo e, pelo preço de mercado na Alemanha, disputa seriamente com Borgonhas mais baratos…

Blauschiefer QbA 2008

Proveniente de um vinhedo de solo composto com mais de 80% de ardósia (nesse caso a azul=blauschiefer), é profundo, complexo e muito mineral. Estruturado e volumoso, tem notas tostadas e persistência longa.

“S” Spätburgunder QbA 2008

Agora você já sabe como funciona, né? “S” é de “novo” em alemão. NOT. Esse é o “Selektion”, feito com uvas escolhidas pela grande qualidade. Muito mais rico que os outros, com uma ampla gama de sutilezas (carne crua, carne defumada, violetas, framboesas, notas vegetais), bom volume em boca com taninos muito finos e grande intensidade de sabor. A acidez é muito viva e o final longo.

Só trabalho nesse negócio se for amarrado. Literalmente.

Dernauer Pfarrwingert Großess Gewächs 2008

O “vinhedo do pastor” (pfarr) é um dos muitos que levam nomes associados à igreja em toda a Alemanha. Sem a menor dúvida, um vinho de grande destaque. Nariz muito intenso, bonito e instigante. Voltei à taça de novo, de novo e de novo. Muito equilibrado, volumoso e fresco, com fruta fresca e taninos altos, ainda novos, muito muito longo e rico.

Walporzheimer Kräuterberg Großess Gewächs 2008

O mais rico, denso e volumoso, intenso e longo de todos. Especiado, com canela e toques apimentados, um leve perfume de café torrado. Estruturado, muito equilibrado, mas com os taninos ainda um pouco pesados, foi engarrafado há pouco mais de 3 meses e, de acordo com Näkel, vai se “encaixar” melhor com mais outros 3 na garrafa.

Campo Ardosa Reserva RRR 2003 – Quinta da Carvalhosa – Douro, Portugal

Já que somos brasileiros (e um de nós vive em Portugal), Werner foi simpático e ainda mais generoso ao abrir uma garrafa da sua adega pessoal: um RRR, o rótulo especial da Quinta da Carvalhosa. O RRR é produzido somente em anos especiais, com uvas selecionadas individualmente (isso aí: bago a bago). O vinho tem nariz potente, muito intenso, “doce” de calor. Passas, ameixa seca e fruta cozida fazem pensar no que ele é de fato: um vinho de região quente em um ano famoso pelo calor. No entanto, a grande surpresa foi a boca: nada de excessos, nem de álcool, nem taninos, nem dulçor. Volumoso, com muitos taninos muito maduros e refinados, conservou uma acidez fresquíssima que não se esperaria do vinho. A mineralidade também é rica e o final de fruta preta e chocolate é delicioso. A produção em 2003 foi de apenas 1500 garrafas, que agora provavelmente não existem mais…

Dernauer Pfarrwingert Großess Gewächs 2005

Graças a um probleminha de comunicação (o inglês do Werner é razoavelmente bom, mas os sotaques de ambos os lados dificultam as coisas) nós fomos agraciados com ainda mais uma prova: um Pfarrwingert (que talvez tivesse sido o melhor do dia) já com uns quatro aninhos de garrafa. Amaciado e enriquecido pelo tempo, muito perfumado e de taninos muito finos, se mostrou elegante, perfeitamente balanceado. Nham. Quero mais.

Em suma, não só a região é especialmente impressionante, mas os vinhos foram um pequeno espetáculo à parte. Mesmo os devoradores de garrafas de Borgonha irão reconhecer que os Pinots de Näkel têm refinamento, equilíbrio e riqueza capazes de deliciar quem gosta de fato da variedade, especialmente considerando-se os preços. Pouca, bem pouca coisa de fora da Borgonha mostrou a qualidade unida à tipicidade que esse lugarzinho perdido nas montanhas alemãs pode mostrar.

"Peraí que aqui tem sinal..."

Weinhaus Meyer-Näkel
Hardtbergstraße 20
53507 Dernau Alemanha


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  1. Rodrigo
    17 de May, 2010 at 16:41 | #1

    Grande Bernardeira.
    Estarei por aqui as vezes, rabiscando.
    Um abraço.

  2. Rodrigo
    17 de May, 2010 at 16:42 | #2

    Esqueci de mencionar onde estou, Araraquara – SP – ao seu dispor.

    • 21 de May, 2010 at 14:47 | #3

      Grande Rodrigueira! Como é que você chegou aqui? Abraço.

  3. LuBraz
    10 de June, 2010 at 11:29 | #4

    adorei qd vc fala: taninos altos, ainda novos
    ..gostei do termo e de como tratou os vinhos que viu na Alemanha.
    continuo voltando aqui..
    ate a volta,
    L.

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