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"A biodinâmica é um embuste"

Este artigo foi adaptado para publicação impressa na revista Divino. É possível ver a versão online do artigo na revista aqui.

Steiner

Pesado, não?

Não é só uma frase de alguém – é o nome de um blog, inteiramente dedicado a desmanchar a imagem que a biodionâmica alcançou e a dimensão quase religiosa com que vem se expandindo. O autor, o enólogo Stuart Smith, decidiu embarcar nessa viagem (sem volta, devo dizer) ao assistir um vídeo de outro enólogo, Mike Benzinger, em que este apresentava o uso de chifres no preparo de compostos como uma “prática camponesa ancestral”.

Baseada nas palestras de Rudolph Steiner, hoje a biodinâmica mistura as linhas de cultivo orgânico e sustentável com uma série de práticas que envolvem homeopatia, astrologia em uma espécie de holística que integra até a agricultura “espiritualmente.” Complicadinho, né. Vocês não viram nem o começo.

Tendemos a refutar e, muitas vezes, atacar aquilo que não entendemos ou que nos é estranho. A biodinâmica, como tantas outras linhas filosóficas/religiosas/medicinais/etc. tem bem pouco ou nada de científico, o que a coloca numa situação delicadíssima diante do público, digamos, mais racional.

Há um crescente número de adeptos da linha (tanto entre o público quanto entre os produtores, muitas vezes grandes nomes da enologia mundial), graças a uma ferrenha campanha de divulgação, aos inflamados discursos de seus defensores e ao fato de que a qualidade dos vinhos elaborados com técnicas biodinâmicas é cada vez mais alta, o  que torna o trabalho de quem questiona os méritos das controversas técnicas pregadas por Steiner cada vez mais difícil. No entanto, não são poucos os contestadores dos preparados astrológicos na vitivinicultura, como veremos.

O queridinho dos biodinâmicos é, de longe, Nicolas Joly, provavelmente o mais importante “embaixador” da turma, com  o icônico e controverso (mas delicioso) La Coulée de Serrant. Joly não só viaja o mundo carregando a bandeira da biodinâmica, como está se tornando um prolífico autor sobre o assunto, numa tentativa de “modernizar” os textos de difícil deglutição de Steiner e torná-los mais “acessíveis” ao público.

Tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente na feira da associação Renaissance des Appelations, há dois anos, aqui no Brasil. O homem tem um magnetismo e uma empatia tremendos e fez questão de autografar os dois volumes que tenho aqui comigo. Os livros, embora possam ser cativantes nas analogias e esquemas, trazem uma quantidade de imprecisões e saltos indutivos de desanimar qualquer leitor com um mínimo de boa-vontade em aceitar o lado mais “esotérico” da coisa.

Joly transita com excessiva licença poética entre o debate sobre as influências negativas da vida moderna e reflexões medievais como a dos “elementos dominantes” nos animais de fazenda, passando por um intragável discurso que questiona abertamente a evolução por seleção natural e beira a religiosidade cega. “Esta análise reflete, porém, a doença de nossa época, na qual o homem, que já não compreende mais a origem da vida, prefere prestar atenção a suas manifestações“, ensina Joly em “Vinho do Céu à Terra”, numa de suas frases que recendem a messianismo.

Astrogaláticos

Para os biodinâmicos, a relação entre a uva e o solo não é menos importante que entre ela e os astros.

A turma do “peraí” não deixa passar barato, embora em tempos de defesa do meio ambiente e busca pelo desenvolvimento sustentável eles acabem por soar à maioria como uns fura-greves, na contramão da onda “verde”. É o caso de dois colunistas de uma das mais reputadas revistas de vinhos do mundo, a Fine Wine Magazine: em 2006 Jesús Barquín e Douglas Smith escreveram um artigo – que está disponível online – questionando seriamente o posicionamento pseudo-científico dos biodinâmicos e o quanto eles levam crédito por práticas de agricultura orgânicas que, por si só, trazem efeitos reconhecidamente benéficos às plantas.

Em seguida à publicação do artigo, Barquín e Smith foram veementemente criticados, inclusive por respeitados do mundo do vinho, pela atitude de “mentes-fechadas” e por defenderem o ponto de vista de uma “ciência que não é capaz de explicar tudo”. Um leitor da revista chegou inclusive a descartar a opinião dos dois críticos por “não serem eles mesmos cientistas“.

(Vale notar que, em sua primeira edição, a Fine Wine Magazine havia publicado um artigo do renomado produtor alsaciano Olivier Humbrecht defendendo a biodinâmica).

Pois bem. Se é por falta de ciência, vamos a ela: Linda Chalker-Scott Ph.D, uma horticulturista e pesquisadora da Universidade do Estado de Washington, publicou um breve (e prático) artigo – que pode ser lido aqui – em que pontua muito claramente a óbvia confusão a que se chegou sobre a biodinâmica, o cultivo orgânico e as implicações científicas dessa confusão. A conclusão do artigo resume de maneira muito clara essa bagunça:

  • A agricultura biodinâmica originalmente consistia em uma técnica alternativa de agricultura mística e, portanto, não-científica;
  • A adição recente da metodologia orgânica à biodinâmica resultou em uma mistura confusa de práticas objetivas e crenças subjetivas;
  • Testes científicos de preparações biodinâmicas são limitados e não existem evidências de que a adição dessas preparações melhore a qualidade da planta ou do solo em paisagens cuidadas de modo orgânico;
  • Muitas práticas orgânicas são passíveis de testes científicos e podem resultar em melhoria nos parâmetros da saúde do solo e das plantas;
  • O mundo acadêmico precisa questionar a explosão de crenças pseudocientíficas e ajudar os não-acadêmicos a se tornarem “aprendizes” mais capazes de discernir.

O grande problema, na minha opinião, está justamente em que o “texto” biodinâmico traz premissas muito subjetivas, de teor (no mínimo) esotérico, mas fazendo uso de trechos de compreensões científicas e filosóficas, convenientemente selecionadas para exemplificar somente partes da sua retórica. E como todos os que ficam desconfortáveis ao ser questionados diante de evidências científicas, a maioria de seus adeptos prefere usar “dois pesos e duas medidas” ao invés de contribuir abertamente para o esclarecimento das dúvidas.

Depois de tanta propaganda negativa, vocês já devem estar pensando que eu faço parte dos que recusam quase politicamente uma taça de vinho biodinâmico. Nã-nã-nã. Tem coisas, meus caros, que não é possível negar – eu, entre taças e vinhedos, sigo ainda observando.

Há alguns meses, estive pessoalmente nos vinhedos de Bertrand Gautherot, ex-indústria-de-cosméticos, que se mudou para a Champagne para assumir as terras do pai. Bertrand adotou a biodinâmica quando se deu conta da “vida perdida” que vinha levando ao conhecer os vinhos e a pessoa de Anselme Selosse, o guru biodinâmico da região: deixou de vender suas uvas à cooperativa e passou a vinificar seus próprios vinhos (apenas três: um blanc de blancs, um blanc de noirs e um rosé de saignée de Pinot Noir).

No fundo de sua casa, os antigos vinhedos de seu avô foram repartidos em dois quando seu pai e seu tio ficaram com as terras e novamente quando ele, sua irmã e seu primo as receberam de herança. Metade do vinhedo, de propriedade de Gautherot e da irmã, é cultivada com técnicas biodinâmicas. A outra metade, bem ao lado, é tratada com agrotóxicos pelo primo, que vende suas uvas.

Bertrand tratou de nos oferecer um experimento prático: armado de picareta, boné vermelho e sorriso maroto, sacou um naco da terra seca e sem brotos do primo, depositando-a no chão ao lado de outro tanto de terra úmida retirada do seu próprio vinhedo, uns quatro passos ao lado. Com as mãos em concha, cheirou os dois montinhos de terra e nos ofereceu em seguida: “Cheira!”

Terra de agroquímicos x terra de biodinâmica

O bloquinho de terra seca e farelenta, retirada da parcela de videiras mirradas e retorcidas, tinha cheiro de… bem, cheiro de nada. Um pouco de cheiro de terra, mesmo. Mas o pedaço “vivo” de terra que Bertrand sacou dos seus vinhedos, com pequenas raízes e formigas, esse tinha cheiro de horta, de terra molhada e plantas. Se isso quer dizer algo quanto ao preparado de pó de quartzo enterrado por meses dentro de chifre de vaca, não tenho idéia (e minha intuição me diz que não há muita coisa aí não…), mas é fato que são intrínsecos às técnicas biodinâmicas o cuidado extremo com as plantas e o trabalho atencioso e de pouca intervenção nas adegas, o que, sem a menor dúvida, traz inúmeros benefícios ao vinho final.

O vinho de Gautherot não foi o melhor que provei na Champagne (em especial pelo estilo oxidativo fortemente marcado no vinho final), mas sem a menor dúvida é autêntico e representativo daqueles parcos cinco hectares de terras calcáreas e da personalidade de seu produtor. Em seu site, ele pede desculpa àqueles que estejam em busca de representá-lo em novos mercados, mas para que possa seguir mantendo a qualidade e estilo de seus vinhos, não pode produzir mais. Para mim, isso vale MUITOS pontos.

De volta à ciência tradicional, temos um autor que muito admiro e que trata bastante bem os vinhos biodinâmicos: Jamie Goode, também este um verdadeiro cientista, que é apaixonado por vinho. Goode ficou famoso por lançar mão de seus conhecimentos científicos para analisar questões enológicas de grande polêmica ou que simplesmente não haviam sido estudadas adequadamente e publicá-las abertamente através de seu blog TheWineAnorak.com, que deu origem a um dos mais festejados livros do meio, o The Science of Wine.

No livro há um capítulo inteiro sobre a biodinâmica, que pode inclusive ser lido no blog, com direito a entrevistas com produtores e autores sobre o assunto e análises resumidas de alguns estudos (científicos) sobre a eficácia das técnicas. Um dos depoimentos, do renomado produtor Michel Chapoutier, me parece bastante eloqüente quando se trata das pirações de Steiner:

Steiner teve o gênio de descobrir uma grande idéia, mas ele recebe tanto reconhecimento que as pessoas acham que ele acertou em tudo, até mesmo nos detalhes. Gente como Steiner é ótima com grandes idéias, mas não tão boa com detalhes“, explica Chapoutier, um entusiasta da pesquisa científica sobre os resultados das técnicas biodinâmicas.

Como bom cientista, Goode não nega suas observações, mas tampouco sua intuição e seu intelecto: “Podemos de certa forma concluir que a biodinâmica parece funcionar quando testada cientificamente, embora não da forma dramática com que muitos diriam funcionar. Mas isso é um “endôsso qualificado”; nós ainda não sabemos exatamente quais elementos do sistema biodinâmico estão contribuindo para sua eficácia.

A conclusão do capítulo traz o que é para a mim a definição da importância da biodinâmica para o mundo do vinho hoje. Nas palavras de Goode:

Apesar da natureza esquisita e aparentemente anti-científica de algumas de suas práticas, a biodinâmica certamente merece mais estudo científico. De modo geral, vinhateiros que operam com esta estrutura filosófica pouco usual estão fazendo vinhos interessantes e cheios de personalidade: algo de que o mundo desesperadamente necessita mais.

  1. 19 de June, 2010 at 23:12 | #1

    Tema bastante controverso.
    Parabéns pela abordagem, ainda haverá muito debate até que haja um consenso.

    Um brinde,

    Denys Roman http://www.caveantiga.com.br http://www.twitter.com/caveantiga http://www.facebook.com/vinicolacaveantiga

    • 22 de June, 2010 at 14:16 | #2

      Denys, obrigado pela visita. O assunto é extenso e profundo e a falta de informações científicas só complica tudo. A maioria das pessoas se limita a propagar mitos e afirmações casuais, ao invés de tentar analisar os fatos. Se você conseguir mais informações por aí, não deixe de compartilhar…

  2. Helô
    20 de June, 2010 at 10:49 | #3

    Ber, mesmo sabendo pouco sobre a biodinâmica e sem ter provado seus vinhos, arrisco meu palpite: isso parece aquela estória da sopa de pedra. Fazem tanta coisa, botam tantos ingredientes na terra que o resultado tem que ser bom. Mas, como disseste, vai saber se o chifre enterrado é "o" ingrediente…

    Pergunta: consegues notar diferença entre um bom biodinâmico e um bom orgânico? Um é melhor do que o outro?

    beijo e obrigada por mais um texto que dá gosto ler.

    • 22 de June, 2010 at 14:14 | #4

      Helô, a coisa vai por aí mesmo, é meio que sopa de pedra. Teoricamente é impossível diferenciar um bom orgânico de um bom biodinâmico, inclusive porque quase todo orgânico que atinge níveis absurdos de cuidado com o vinhedo acaba se convertendo à biodinâmica… Bagunçado, né?

  3. 22 de June, 2010 at 18:26 | #5

    Aproveitando o movimento, uma boa coluna sobre o assunto: http://www.examiner.com/x-5111-Detroit-Wine-Exami

    via thewinehub.com

  4. Talita Adeodato
    24 de July, 2010 at 14:35 | #6

    Olá,

    Parabéns pelo assunto abordado. Trabalho a quatro anos com cultivo biodinâmico e concordo que há necessidade de mais estudo sobre o assunto. O que posso compartilhar é que as pessoas que trabalham diretamente com técnicas biodinâmicas conseguem resultados diferenciados em suas lavouras e um poder elevado de percepção diante da sutil função dos preparados. Sendo uma agricultura de observação, o produtor biodinâmico passa a entender melhor sua propriedade como um organismo vivo. Não vamos nos limitar aos preparados, lembramos que ser um agricultor biodinâmico significa mudar a forma de pensar, respeitando a vida em todos os sentidos.
    Abraços,
    Talita Adeodato
    Ubajara – CE

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