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Às cegas todos os vinhos são tintos

February 12th, 2011 Rabiscaí! Checa os rabiscos.

Aprender sobre vinho poderia entrar pro rol de “tarefas ingratas” não fosse o inquestionável prazer do percurso: entre garrafas deliciosas, viagens a algumas das mais bonitas regiões do mundo e pessoas de todo tipo, cor e credo com quem a gente se encontra pra tentar entender alguma coisa, quase dá pra esquecer o tanto que é fácil se perder em meio a tanta região, estilo, técnica e… safras. Malditas safras.

Acho que já falei de degustação às cegas e a semana foi rica em, bem, sentimentos mistos com relação a elas. O resultado um tanto brochante das provas de destilados do Diploma do WSET (acertar origem e estilo dos destilados e tomar bomba na prova de degustação assim mesmo é duro) abriu os trabalhos, seguidos de duas degustações sem dúvida nenhuma extremamente esclarecedoras.

Queria dar o crédito da foto, mas o site de onde eu roubei deve ter roubado de outro site.

A primeira foi a convite dos simpáticos Los e Marcel, um experimento interessantíssimo a ser publicado na próxima edição da revista diVino, donde poucos detalhes pra não arruinar a festa. Fato é que, revelados os vinhos, as conclusões e notas sobre cada um fazem sentido e constróem um retrato significativo da produção em uma determinada região (mais sobre esta ainda por vir, queiram os deuses dos blogs).

A segunda, desbunde total, foi em comemoração ao aniversário de dois confrades, com exemplares cuidadosamente selecionados da adega de um deles. Double blind, ou seja, não se sabe a ordem do que está sendo servido e nem quais são as amostras, fomos apresentados com as charadas, tendo como única premissa o fato de todos os vinhos serem “cortes bordaleses” (compostos com as uvas típicas da região de Bordeaux, com destaque para Cabernet Sauvignon e Merlot):

– Quantos países temos?
– Quais são as regiões de origem?
– Que vinhos são?

Provei os vinhos com cuidado, fazendo minhas anotações sistemáticas e tentando encontrar os indícios que normalmente nos apontam a provável origem de um vinho:

. o primeiro, rico, elaborado, mostrava um pouco de evolução e bom equilíbrio entre fruta, madeira e os aromas do tempo. Poderia ser francês, mas também poderia vir das mãos de um enólogo competente em uma região de qualidade do Novo Mundo.

. o segundo, exuberante, razoavelmente moderno e potente, cheirava a banana-passa mas não tinha dulçor na boca. Alguém do meu lado grunhiu “Pauillac” e imaginei que poderia ser mesmo um bam-bam-bam de Bordeaux em um ano razoavelmente quente, mas que eu preferia, de novo, Novo Mundo com qualidade surpreendente.

. o terceiro me dizia “Bordeaux, Bordeaux” com a mistura de tabaco e fruta, nota vegetal mas não verde e os taninos finos. Registrei mentalmente que “isso aqui é França” e fui em frente.

. o quarto vinho, de cor concentrada, me fez rever as cores dos três primeiros (eu tinha anotado tudo, mas até aqui as cores não tinham variado muito). Parecia um pouco mais velho que os outros (mais traços alaranjados) mas, sem dúvida, mais concentrado. O nariz não era muito intenso, uma notinha de menta na boca e taninos potentes, até um pouco ásperos, me fizeram pensar de novo em ano quente pra região clássica.

. o quinto era de longe o que se mostrava mais novo, com mais roxo na cor. No nariz, muito mentol, algo de pimentão e ervas e na boca muita potência. “Caramba”, pensei, “será mesmo que tem Chile aqui?”. Vindo de quem vinha, podia ser qualquer coisa e uma garrafa secreta de uma das pecinhas-chave do vinho de qualidade chileno podia ser uma bela pegadinha.

. o último vinho do lote era, ao contrário, sem dúvida o mais velho. Quase pálido, translúcido, com muita cor laranja misturada ao que sobrava de vermelho. Elegante e complexo, com muito do “queimado” que faz pensar em asfalto e me lembra sempre dos Bordeaux mais velhos que eu já pude beber. A primeira recordação foi de um Cheval Blanc 1975 (!), bebido em almoço no “Les Chassagnes” (!!) com Noël Ramonet (!!!) quando eu mal havia provado coisas velhas na vida, então decidi que esse seria algo com muito Cabernet Franc ou, ao menos, algo da margem direita de Bordeaux.

Repassei as amostras, remendei algumas anotações e, já com as votações em andamento, decidi que Bordeaux era certo, mas que havia ao menos um grande vinho do Novo Mundo ali no meio pra atrapalhar e que, talvez dessa vez, poderia ser uma jogada esperta que houvesse vários. Já tinham votado 2, 1 ou 2, 3, 3 ou 4, então votei em 4 países (França, Austrália, Chile e Estados Unidos).

Curiosos? Já vai. Já foi, aqui.

  1. 24 de February, 2011 at 22:07 | #1

    Não vai mesmo nos contar quais eram os vinhos?

    • Beda
      24 de February, 2011 at 22:11 | #2

      Hahaha! Estou justamente trabalhando nisto!

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