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Das safras e degustações às cegas – finalmente

February 28th, 2011 Rabiscaí! Checa os rabiscos.

A safra de um vinho, para o consumidor, é um negócio esquisito: por um lado, sem dúvida, é referência importante de qualidade já que afeta o vinho diretamente (afinal, a videira é considerada a planta que mais fielmente transfere aquilo que viveu para seu fruto e em seguida para a bebida produzida com esse fruto), enquanto, por outro, não é nada dessas coisas no dia-a-dia do bebedor comum de vinhos.

Muita gente já chega afiada às lojas e restaurantes, engatilhando um “só 2005” ou “2002 de jeito nenhum” ou sacando uma elaborada pero no mucho tabelinha de safras do bolso e ignorando a complexidade da cadeia de produção do vinho e o quanto isso torna muito, muito difícil fazer afirmações genéricas.

Anos “ruins” como 2002, que na Europa em geral foi chuvoso e frio e anulou a produção de vinhos importantes em várias regiões de destaque, produziram por outro lado vinhos “médios” de boa qualidade nessas regiões (afinal, aquelas uvas que não se arruinaram mas não foram capazes de produzir os vinhos mais renomados, certamente não foram pro lixo), excelentes Champagne e Sauternes e, mesmo nas regiões mais afetadas, boas garrafas dos melhores vinhos, como o Barolo Monfortino dos Conterno, no Piemonte e os mais importantes Crus Classés de Bordeaux.

Falando em Bordeaux… de volta à degustação de quinta, antes que alguém mais me xingue: fato é que todos os vinhos vinham de um único país. De uma única região. Peraí, tem mais. De uma única denominação de origem, dentro dessa região. Todos os vinhos eram do mesmo, único, produtor, todos com proporções significativas de Cabernet Sauvignon mas nada de muito drasticamente diferente na sua produção, exceto… a safra.

A safra, importante para qualidade, nem tanto para o bom proveito de uma garrafa, é fundamental nesse joguinho sádico da degustação às cegas. E eu pedi “quatro países” na votação. Vai, exagerei na expectativa de uma pegadinha, podiam ser só dois, mas, cara, eram todos o mesmo vinho e a única coisa que variava eram as queridas safras.

Diante da verdade das todo-poderosas-safras, revisitei todas as taças e ouvi os comentários oficiais, que fizeram pouco para ilustrar aquele jogo de taças diante de mim, coisa que ficou reservada para os livros. O vinho, sem mais, era o renomado Château Leoville-las-Cases, de St. Julien, em Bordeaux.

Era tudo Las Cases, mas às cegas, todos os vinhos são tintos.

 

Bom, vocês vão se lembrar que minhas notas de degustação tinham acusado ao menos três vinhos “de calor”, além de dois definitivamente europeus e um velhinho, que me fez pensar em um “margem direita” que havia provado há tempo. Como o resto da noite se desenrolou de maneira muito descontraída, só pude analisar os resultados da prova contra as características das safras ao longo desta semana, de livros nas mãos.

Pra muita gente, notas de degustação detalhadas e, às vezes, cheias de analogias demais são um mistério e fazem pouco sentido. Numa tentativa pouco didática (mas que está sendo excelente como reflexão minha sobre as anotações), segue um raciocínio comparando minhas notas com notas sobre safras e vinhos adaptados do The Complete Bordeaux, livro de Stephen Brook.

Os vinhos da degustação eram, de fato, os seguintes, nesta ordem:

(e qualquer um com pressa ou sem vontade de me ler divagar sobre os vinhos, pode pular essa parte e esperar o próximo post):

198919851988198219861975

Vinho no. 1 – Leoville-las-Cases 1989

Rabiscos da noite: Granada médio, escuro no centro, reflexos alaranjados na borda. Nariz de intensidade alta -, cereja preta, tabaco, boa evolução. Leve couro, madeira + fruta elegante. Em boca corpo médio, estrutura média, taninos finos, polidos pelo tempo. Acidez média +, álcool médio. Cassis, amora, cereja e madeira. Final médio, seca um pouco.

Tradução: O vinho é intenso, tanto na cor quanto nos aromas, sinal de que está vivo e ainda tem tempo de vida pela frente. A borda clara, com tons alaranjados me diz, porém, que já teve boa evolução. Os perfumes são uma mistura dos aromas de juventude (as frutas) com os de evolução (o couro, algo que faz pensar em decadência, a madeira), mas de uma forma muito bem integrada, o que demonstra qualidade. Os taninos são finos e parecem ter sido “afinados”, mais um sinal de tempo (ou de técnicas de afinamento bem avançadas) mas secam um pouco, o que pode refletir características climáticas.

Na minha cachola, isso é provavelmente francês, mas poderia ser um excelente exemplar de vinho americano, cuidadosamente moldado nos estereótipos de Bordeaux.

O Ano: Inverno ameno com primavera quente, permitindo floração prematura. Verão muito quente e seco, qualidade final das uvas muito alta, com teores de açúcar e de taninos particularmente altos. Até Petit Verdot amadureceu bem, ano excelente e vinhos de vida muito longa.

Tradução: Fez calor e isso produziu uvas ricas, que fizeram vinhos potentes, o que podia-se notar na prova. Os taninos estão explicados e a qualidade do vinho também. Considerando que ele completou agora 21 anos e parece poder seguir em frente, as previsões de qualidade e longevidade faziam todo sentido.

Notas do crítico (S. Brooke): “Suntuoso mas corpulento e, como o 86, ainda muito fechado. Tem todos os componentes no lugar, mas o vinho permanece inexpressivo”.

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Vinho no. 2 – Leoville-las-Cases 1985

 

Rabiscos da noite: Granada denso, borda clara, reflexos mistos de violeta e laranja. Nariz vegetal, mineral e defumado, banana passa. Corpo médio, taninos médios, fruta doce, banana passa. Moderno? Defumado, alcatrão. Final médio +, fresco e saboroso, clássico (mix de fruta e madeira com evolução).

É dessa barafunda que eu saco minhas "lembranças".

Tradução: A intensidade é maior, mas a borda mais clara e a cor mistura jovialidade e evolução. Sinal de que o vinho deve ter sido mais concentrado quando novo, mas evoluiu mais ou mais rapidamente. O nariz mistura características do velho mundo (vegetal, mineral) e do novo mundo ou de calor (banana passa), mas na boca é refinado, fresco, elegante e nada doce, apesar do sabor de passas se repetir. Como alguém soprou Pauillac, à mesa, fiquei influenciado e decidi que deveria ser França, apesar de pensar que poderia ser também algo bem feito, por exemplo na Austrália.

O Ano: A primavera foi muito chuvosa, o que poderia ter diminuído o tamanho da colheita por complicar a floração. No entanto, esta foi uma das maiores colheitas da década, ainda que bem amadurecida por calor e a maior seca desde 1961. De acordo com Brooke, os produtores que não controlaram bem seus volumes de rendimento fizeram vinhos diluídos (nunca o caso em Leoville-las-Cases e veremos o porque em outro post).

Tradução: Aqui também teve bastante calor e um verão muito seco e isso provavelmente contribuiu para aqueles sabores e perfumes de banana passa. O vinho é um pouco mais velho que o primeiro, então a borda mais clara fica explicada, mas a priori não se explica maior concentração e jovialidade na cor do centro.

Notas do crítico: “O 85 tem toda a opulência sedutora da safra: um vinho grande, doce (mas não “geleioso”) e hedônico, tem aromas intensos de cassis e chocolate e uma estrutura clássica”.

 

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Vinho no. 3 – Leoville-las-Cases 1988

Rabiscos da noite: Granada médio, bordas claras com halo médio e traços alaranjados, borra fina. Nariz de intensidade média, “doce”, fruta madura. Resina/eucalipto, tostado. Boca corpo médio, acidez média +, tabaco, defumado. Muitos taninos, finos, final médio, seca um pouco.

Tradução: Sem excessos, com a cor parecida com a dos anteriores e tudo muito bem encaixado, este vinho simplesmente me fazia lembrar de outros Bordeaux. Decidi que era isso e não pensei mais.

O Ano: Inverno ameno e chuvoso, primavera quente mas também chuvosa, com ataques de fungos aqui e ali. Mais chuva em Julho, mas calor e seca em Agosto, eliminando os problemas com fungos. Mais chuvas depois, mas sem maiores problemas. Vinhos em geral austeros, níveis de açúcar não muito altos, taninos e acidez em ressalte.

Tradução: Tanta chuva dá medo, mas parece que não foi tão grave. Ainda assim, deve ter faltado luz e calor pra um amadurecimento extra. Notam-se no vinho a acidez um pouco mais alta, os taninos mais secos e o estilo “clássico”, típico das regiões européias, que raramente usufruem do calor e da luz que abunda no novo mundo, como previsto na descrição da safra.

Notas do crítico: “Admiro o 88 porque a tentação de fazer um vinho sobre-extraído foi claramente resistida. Sim, o vinho é estruturado e tânico, mas há elegância e especiaria e vigor, também”.

 

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Vinho no. 4 – Leoville-las-Cases 1982

Rabiscos da noite: Granada muito escuro, borda com reflexos marrons e grená. Nariz de intensidade média -, um pouco apagado. Boca de corpo médio, taninos altos, secantes. Fruta madura, defumado, alcatrão. Leve mentol. Final médio +, seca um pouco. Típico Cabernet evoluído.

Say WHAAAT?

Tradução: Muita concentração (a ponto de me fazer rever a cor dos outros), mas com a denúncia da idade na borda. O nariz fechado, apagadinho, faz pensar que pode ter passado do ponto, mas como a boca ainda mostra sabor, possivelmente esta é uma garrafa um pouco prejudicada (diz-se comumente que após certa idade, não há grandes vinhos, somente grandes garrafas). O vinho é austero, muito dificilmente de um país quente, mas a estrutura e a concentração sugerem ano de excelente qualidade.

O Ano: A temporada produziu uvas com maturação perfeita e enorme riqueza. A acidez ficou ligeiramente baixam produzindo vinhos de opulência fora do comum em toda a região. Alguns críticos descartaram os vinhos como “californianos” em seu estilo. A colheita foi farta, então as quantidades de vinhos também.

Tradução: Díficil traduzir (e até mesmo resumir) o texto de Brooks sobre 82, basicamente porque fala muito dos vinhos e pouco da safra, que é histórica e uma das mais importantes e de maior qualidade da história de Bordeaux. Achei que o manezão perdeu a chance de escrever um bom pedaço de história num livro que é considerado referência sobre a região. De toda maneira, é de se esperar que os vinhos sejam ricos e longevos (“maturação perfeita e enorme riqueza”) e se alguém quiser ler uma resenha adequada sobre 1982, visitem Chris Kissac no The Wine Doctor.

Notas do crítico: “O 82 é um dos melhores vinhos, de um ano memorável. Oferece um maravilhoso coquetel de fruta doce e madura e aromas de frutinhas amassadas. O paladar é suntuoso e concentrado, com enorme profundidade e poder, madeira nova finamente integrada e um final surpreeendentemente longo. Bordeaux não fica muito melhor que isso”.

 

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Vinho no. 5 – Leoville-las-Cases 1986

Rabiscos da noite: Rubi médio +, misto de violeta com grená. Jovem? Nariz de intensidade média +, mentol. Pimentão, ervas secas/tempero de carne. Em boca é sedoso, modernete, acidez média e taninos altos, com intensidade média +, mentol, eucalipto e defumado. Final seco e médio. Vinho potente, mesmo com o álcool bem equilibrado.

Tradução: O mais novo do grupo (cor, intensidade e tipos de aromas de vinho jovem). Além disso, alguns aromas típicos de Cabernet mas muito típicos dessa variedade no Chile me fizeram pensar se na “pegadinha” havia algo de grande do Chile de uma safra um pouco mais velha. A histórica primeira safra de um Almaviva, por exemplo, 1996, poderia se encaixar aqui, não poderia?

O Ano: Verão seco e quente terminou com chuva e tempestades. Merlot ficou prejudicada, mas os produtores de Cabernet que esperaram conseguiram uvas de boa qualidade. O final de Outubro trouxe clima bom e maturação completa para as uvas, com colheita bastante grande mas uvas bem pequenas, com teor de taninos altos. Os vinhos foram bons e de estilo clássico, com taninos marcantes.

Tradução: Nada aqui explica minhas notas de degustação, exceto os taninos altos mas amaciados pelo tempo e a alta concentração de cor. A descrição do clima me parece implicar em um vinho bastante europeu, mas pode ser que a combinação de calor e seca antecipados com chuva no meio do caminho e calor de novo no final tenha sido justamente o que causou a mistura de sensações “verdes” com a de “maduro”, vai saber. (Alguém aí sabe?).

Notas do crítico: “Fechado quando novo, o 86 ainda estava fechado quando provei em 98, mas certamente irá se abrir em um vinho magnífico, concentrado, complexo e longo”.

 

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Vinho no. 6 – Leoville-las-Cases 1975

Rabiscos da noite: Granada médio -, borda clara, bastante tijolo. Intensidade média com fruta intensa e elegante no nariz, leve rolha/madeira tostada, como em Cabernet Franc antigo. Boca de corpo médio -, defumado, repete a sensação do nariz, acidez alta. Taninos altos, finos, casca de noz e charuto. Seco.

Tradução: E agora, o mais velho, mais translúcido, com mais alaranjado na cor e mais aromas de evolução. A sensação de que eu já conhecia os aromas de evolução me deram certeza de que era Bordeaux e me lembraram do vinho provado no restaurante em Chassagne, que em casa descobri ser da mesma safra (e provavelmente não há conexão entre os aromas só por causa disso, exceto pela idade).

O Ano: Ao bom clima durante a floração seguiu-se um verão quente, interrompido ocasionalmente por poderosas tempestades. As uvas desenvolveram cascas grossas e os vinhos, por conseqüência, taninos marcantes. Há grande variação de qualidade entre as propriedades, uma vez que o tanino muitas vezes se sobrepôs às uvas. (Historicamente há também razões para que os produtores tenham arriscado colher mais cedo e com taninos mais verdes: 74 foi bastante ruim.

Tradução: O ano foi bom, mas não pra todos e não de qualquer jeito. Na prática, podemos inferir que as uvas foram saudáveis e que os vinhos provavelmente só seriam agradáveis mais velhos, possivelmente por muitos anos se as uvas foram colhidas na hora certa e bem vinificadas. Parece ser o caso aqui.

Notas do crítico: “Sem dúvida um dos melhores desta safra difícil. O nariz é defumado e complexo, mas ainda reservado; o paladar é massivo e tânico, embora o vinho não seja duro e haja um intenso “miolo” de fruta.”

 

De volta

Encerro a tortura porque segunda é amanhã e amanhã já passou da hora no relógio… mas ao longo da semana tem mais, inclusive sobre Leoville.

  1. Ikuyo Kiyuna
    4 de April, 2011 at 06:48 | #1

    Olá Bernardo, excelente artigo, pra poucos (colunistas corajosos e leitores estudiosos).
    Parabéns pelo artigo e parabéns pelo WSET Diploma, a alguns passos, pelo jeito primeiro do Brasil.

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