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Guia de Vinhos sob nova administração

Não é sem motivo que são os mais velhos a levar adiante a tocha do vinho – é um universo que requer contato prolongado e, porque não, boa dose de recursos financeiros para permitir aquisição de experiência, avanços concretos e compreensões aprofundadas.

Os grandes enólogos, os maiores autores, os mais famosos degustadores, principais expoentes da cultura enológica, são respeitáveis senhores com algumas – as vezes várias – décadas de experiência.

Temos visto com freqüência (suficiente para que já esteja próximo do clichê) os destaques da mídia para a nova guarda da enologia mundial: filhos, sobrinhos e jovens assistentes que vêm assumindo as rédeas de algumas das mais renomadas vinícolas de todo o mundo. Aos poucos, vemos ceder passo a seus herdeiros uma geração que fez fama para propriedades, denominações de origem e estilos, uma geração responsável por criar boa parte do que hoje conhecemos como vinho.

Verdadeiras instituições desse universo, a pontuação de vinhos e o “gurunato” enológico dos guias e revistas são fenômenos relativamente recentes, originados em meados da década de 80 e estabelecidos com tal vigor que seus conceitos de avaliação se tornaram profundamente arraigados na cultura do consumidor em todo o mundo.

E parecia estar aí a fortaleza máxima da velha guarda: são os senhores de têmporas brancas a determinar que vinhos tiveram um, dois ou dez pontos a mais que os outros, terminando por ditar aos consumidores condicionados a consultar tabelas de pontuação que garrafas devem ser compradas e bebidas. Ou, quem sabe, foram, até há pouco, os senhores de têmporas brancas.

Lançado oficialmente em Outubro de 2010, em cerimônia no estádio Pala Olimpico de Turim, Slow Wine, o guia de vinhos de uma das mais politizadas associações do mundo vinculadas à gastronomia é conduzido por uma equipe de jovens degustadores com a benção de grandes nomes da enogastronomia italiana e marca a separação em definitivo entre o movimento Slow Food e a multi-meios Gambero Rosso.

“Nos separamos como se separa um casal quando percebe que já não funciona bem junto: sem visitar os advogados, mas conscientes de nossas diferenças”, conta Giancarlo Gariglio, co-editor do guia. Gariglio é um cara novo, mas que já conta com 10 anos de experiência na publicação do “Vini d’Italia” e assumiu com energia a liderança do projeto do novo guia.

“Do ponto de vista Slow Food, elementos importantes como a rede Terra Mater, o trabalho da terra e os “presìdi” [“fortalezas” na tradução oficial da associação] se perderam em meio ao guia Gambero Rosso em favor da análise organoléptica, coisa que se repete em 95% da crítica enológica mundial”, continua Gariglio.

Desde a edição 2010 o corpo de colaboradores do Slow Food não contribui para a publicação do já histórico guia “Vini d’Italia“, que vinha sendo elaborado em conjunto pelas duas equipes desde 1986. Foi para 2011 que se criou algo de completamente novo no universo dos guias de vinho italianos (e, possivelmente, de todo o mundo), após um ano de pausa para auto-análise e planejamento.

“O ano sabático foi um risco grande, mas nos permitiu criar um novo conceito de guia de vinhos. Tivemos de refletir bastante e nossa maior dúvida era: ‘a Itália precisa de um novo guia?’ Já existiam uns cinco diferentes, mas nenhum aplicava os critérios Slow Food.”

Eu sei, parece trocadilho barato: alguém pegou “Slow Food” e simplesmente traduziu o nome para o mundo do vinho. A “tradução”, no entanto, é seríssima e talvez um marco e momento de virada no universo dos guias, seleções e degustações de vinho, cravejados de pontuações e descrições istriônicas, geralmente vinculados diretamente a provas isoladas dos vinhos, feitas em salas fechadas e afastadas do mundo real do vinho, que é (0u foi) sua terra de origem, as idéias de pessoas e o consumo à mesa, com amigos, comida e prazer.

“Fechar-se em uma sala por três meses e não olhar além das paredes é muito perigoso: é se esquecer de tudo aquilo que está fora da sala. O vinho não nasce de maneira casual: é resultado de um lugar, uma pessoa e das escolhas que são feitas. O julgamento deve ir além da taça.”

Gianluca Gariglio e Slow Wine, seu filhote.

Gianluca Gariglio e Slow Wine, seu filhote, no Albergo dell'Agenzia.

O guia faz uma reviravolta: anula por completo a apresentação de pontuações numéricas ou simbólicas e dá foco à descrição da vinícola, de seus objetivos, de sua história e produção, fazendo também uma rápida apresentação de seus vinhos de destaque. Para elaborar seu conteúdo, mais de 2.000 vinícolas foram visitadas pela equipe, que também degustou cerca de 21.000 vinhos, em busca das pérolas a serem descritas aos leitores.

Pra quem acompanha o blog, é fácil imaginar como essa conversa com Gariglio me levou ao delírio. É claro que a ausência de notas não é por si só algo inovador – no entanto, posicionar-se efetiva e abertamente a favor de contextualizar o vinho, de convidar as pessoas a ler, visitar, entender a realidade da produção daquele vinho, é SIM algo importantíssimo.

E, em particular em tempos de predomínio da pressa por comparar as notas de um vinho com outro e decidir o quanto esse ou aquele podem ser melhores, um guia INTEIRO produzido com base em preceitos totalmente opostos e assinado por uma reconhecida associação é revigorante.

Que isto seja feito por gente jovem e cheia de idéias frescas, que ao mesmo tempo não desacredita nem deixa de contar com a experiência dos mais velhos, é também sinal de que há muita coisa nova (e boa) por vir.

 

 

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