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Tornando-se um Master of Wine, por Debra Meiburg MW

A americana Debra Meiburg é Master of Wine desde 2008 e vem se dedicando a ensinar sobre vinho há anos, com atuação de grande relevo no mercado asiático. Baseada em Hong Kong, Debra foi eleita “Mais influente jornalista em Hong Kong” em 2007 e é colunista semanal do South China Morning Post.

Neste artigo, publicado originalmente na revista Tatler, ela conta um pouco sobre o seu percurso durante os exames para a obtenção do título mais respeitado do mundo do vinho e inaugura uma série “comemorativa” da minha graduação no Diploma do WSET, em que estudantes e graduados no programa do IMW dão suas impressões sobre o processo, a que planejo me submeter no futuro.

Debra foi extremamente gentil em permitir a tradução e publicação do artigo no Peripécias e costuma ser muito disponível em suas participações nos fóruns de vinho da internet.

Boa leitura!
Bernardo

Ele já foi chamado de “o exame mais difícil do mundo”. Aposto que é, embora eu nunca tenha tentado o outro concorrente, o de entrada no “All Souls”, da Universidade de Oxford, para comparar. Os candidatos da prova levam anos de estudo, abrem incontáveis garrafas de vinho e gastam as solas em centenas de adegas na busca por conseguir o mais alto reconhecimento na profissão do vinho: o título de Master of Wine (MW). Considerado por muitos como o “Ph.D. do vinho”, existem apenas 273(1) Masters of Wine no mundo, com somente alguns poucos obtendo o título a cada ano.

A maior parte dos estudantes esperançosos de obter o título de MW já passou por cursos universitários de enologia e diplomas oferecidos pelo conceituado Wine & Spirit Education Trust – sem mencionar os anos de trabalho no mercado de vinhos – antes de atacar a íngreme subida em direção ao título.

Entrar no programa anual de estudos foi a primeira e – em retrospectiva – a mais fácil barreira. Como pretendente à vaga, preparei uma dissertação sobre um tema pré-definido, obtive referências de dois Masters of Wine e aí esperei pelos intimidantes resultados. Ao ser aceita, assinei um cheque para participar de um seminário de orientação de quatro dias, começando o árduo, mas entusiasmante caminho para o quartel-general dos MW. Após as avaliações do primeiro ano, os estudantes são deixados por conta própria até que tenham que voltar no ano seguinte para simulados de provas e feedback. Nesse meio-termo, formam grupos de degustação, elaboram – e reelaboram – intrincados planos de estudo e começam a esquivar-se de qualquer outro divertimento.

O “Institute of Masters of Wine” não é uma escola de fato, com prédios e salas de aula. Em vez disso, o Instituto é modelado, de certa forma, nas linhas das antigas guildas inglesas, composto de um pequeno escritório administrativo gerido por Masters of Wine que se voluntariam a conduzir os exames e programas de educação do instituto.

Um de seus maiores sucessos é o programa de mentoring, ou tutoria. Cada estudante recebe a indicação de um Master of Wine como tutor, que ajuda na revisão de ensaios e notas de degustação para dar suporte e orientação. Como se espera que os alunos já sejam especialistas em vinho antes de se inscreverem, os programas anuais de educação não contemplam um currículo propriamente sobre vinho. É deixado para cada um que verifique suas fraquezas e lacunas (e descubra como resolvê-las!).  Durante os programas anuais, um leque de Masters of Wine – um verdadeiro “quem é quem” do mundo do vinho – oferece dicas, orientação e conselhos sobre as técnicas de exame. É aí que está uma das maiores frustrações para os alunos: os conselhos podem ser variados e contraditórios, já que cada MW fala de sua própria experiência nos exames. Imagine uma sala cheia de chefes estrelados lhe dizendo como fritar um ovo.

Para se tornar um Master of Wine, é necessário superar um severo exame de três partes, dividido em Prática, Teoria e Dissertação. A parte prática – uma exaustiva prova de degustação de três dias – e os exames teóricos acontecem somente uma vez por ano e devem ser feitos simultaneamente.  A partir das 9h00 de manhãs frescas de Junho em Londres, Sydney ou San Francisco, nervosos candidatos encaram doze misteriosas taças de vinho. Durante duas horas, espera-se que os estudantes não somente identifiquem os vinhos, mas também produzam mais de vinte páginas em resposta às perguntas dos examinadores.  Embora o formato das questões costume variar, os candidatos devem identificar a variedade de uva ou o corte utilizado; localizar com precisão a origem do vinho; descrever as técnicas de produção utilizadas; discutir o nível de qualidade do vinho, seu segmento de mercado ou potencial de envelhecimento; e identificar sua safra. Toda constatação deve ser embasada em evidências encontradas na taça de vinho.

Os alunos são ensinados a “pensar como um detetive e escrever como um advogado”: devem construir seus argumentos e defender suas posições.  Algum treinamento em corrida de cem metros rasos poderia ter sido útil, também. O tempo disponível é apertado e colocar as palavras no papel rápido o suficiente é um desafio. Por meses antes do exame, eu pulei da cama, saquei rolhas de garrafas e provei uma dúzia de vinhos com um cronômetro em mãos – tudo antes do meu café da manhã. O exame prático inclui vinhos brancos no primeiro dia e tintos no segundo. Em seguida, os alunos podem esperar qualquer tipo de vinho, incluindo espumantes, fortificados, doces, tintos e rosés.

Depois de um lanche rápido, os estudantes se esgueiram de volta à sala de exames para serem testados sobre seus conhecimentos teóricos. O exame teórico é uma prova escrita feita em quatro dias que compreende quinze ensaios de deixar as mãos doendo.  No primeiro dia, o exame se foca no estabelecimento de vinhedos e produção de uvas; o segundo dia se dedica à enologia; o terceiro ao “business” internacional do vinho (embalagem, distribuição, marketing, tendências e legislação); e o quarto dia às questões de atualidade do mundo do vinho (alcoolismo, vinho e saúde, plantas geneticamente modificadas, globalização do vinho, etc.).

Como só são permitidas três tentativas em cinco anos para superar os exames, a decisão de quando fazer a primeira tentativa não é tomada de maneira leviana. Os resultados são distribuídos por fax cerca de três meses depois da data do exame. Nunca antes sentar esperando ao lado do aparelho de fax foi uma situação tão tensa. Quando a máquina finalmente cospe um resultado que faz saltar as rolhas de Champanhe, quando você já imaginava ter atingido o cume, há ainda mais uma montanha a escalar: a dissertação. Os candidatos podem escolher qualquer assunto relacionado ao vinho, desde que a bancada examinadora aprove a proposta. Minha dissertação tratava das necessidades de educação para profissionais do vinho em Pequim, Shanghai e Hong Kong.

Após superar as três etapas com sucesso, os candidatos entusiasticamente – ou ainda meio zonzos – assinam um termo de compromisso ético e, somente então, recebem permissão para adicionar as gloriosas iniciais a seu nome. Uma cerimônia formal para a entrega dos certificados de Master of Wine acontece a cada mês de Novembro no salão da Vintners Guild em Londres.

O exame para Master of Wine foi concebido para dar reconhecimento ao pináculo do mundo do vinho e é um título que abre portas de vinícolas e adegas em todo o mundo, mas é principalmente um exercício intelectual, não uma jogada de carreira. E mesmo tendo um suporte global, o programa é em grande medida uma caminhada solitária. Se você tem paixão por vinho, o estômago para repetidas falhas e o espírito para seguir marchando, este programa é para você. Como disse Sir Edmund Hillary: “Não é a montanha que nós conquistamos, mas nós mesmos.”

1. Atualmente, 300 (em setembro de 2011). [Nota do Editor]

Debra Meiburg MW

Saiba mais sobre Debra Meiburg, leia seus artigos e acompanhe uma série de vídeos online em que ela apresenta produtores cara-a-cara através do site http://debramasterofwine.com.

  1. 19 de October, 2011 at 18:02 | #1

    Bernardo,
    o João Renato postou um ripoff da sua tradução no blog dele. Lembrei a ele de incluir a fonte como sendo seu blog, pois tenho a impressão de que o artigo original da Tatler não está disponível na internet, não é mesmo?

    • Bernardo
      19 de October, 2011 at 18:38 | #2

      João, de fato, não sei de nenhum lugar onde se possa ler a peça original da Debra. Ela foi muito disponível em oferecer o artigo para o blog, então duvido que se preocupe com réplicas do texto, mas o indispensável é que haja um link para o site dela e créditos para o artigo.

      Quanto a uma referência ao meu blog, é sempre benvinda, mas as pessoas se esquecem de serem corretas quanto à autoria das coisas. Quem escreve e publica online tem que estar pronto para ver seu material replicado sem nenhuma menção ao autor…

  2. 3 de November, 2011 at 15:48 | #3

    Caro Bernardo,
    o João Juarez me avisou sobre a autoria (tradução) do texto. Como recebi seu texto de um 3o, não sabia que havia sido traduzido por você. Assim, coloquei os créditos em meu Blog apenas para a Debra.

    Está corrigido meu erro. Coloquei link para seu site.
    Abç, João.

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