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Tornando-se um Master of Wine, ou não, por Vasco Magalhães

O processo para a formação de um Master of Wine é longo e exigente. É comum que alunos do Instituto se tornem grandes especialistas em vinho, reputados por sua capacidade de degustação ou seu conhecimento do mercado e da geografia do vinho e, ainda asssim, não obtenham o título. Vasco Magalhães é responsável pelo departamento de Wine Education da SOGRAPE, o maior grupo vitivinícola de Portugal (e um dos maiores do mundo). Além de ter esclarecido uma batelada de dúvidas e compartilhado comigo suas reflexões sobre o processo de estudo e formação (em breve em outro post), o Vasco ainda teve o cuidado de escrever para a série “Tornando-se um Master of Wine” um relato do seu percurso no mundo do vinho e como a formação para MW transformou sua carreira, mesmo sem a obtenção do título. Boa leitura!

Entrei no mundo dos vinhos por acidente. Fui trabalhar para uma casa de Vinho do Porto, ainda não tinha 30 anos, e passado um ano e pouco, deram-me um lugar na “Sala de Provas”. Embora o vinho em casa dos meus pais fosse visita diária nas nossas refeições, eu não fazia ideia o que era provar vinho e muito menos Vinho do Porto. Mas passei a ser “Provador de Vinho do Porto” título que soa um pouco jurássico nos dias de hoje.

Tive um inglês (a companhia era inglesa) como mestre que me ensinou a arte de lotar1 os vinhos, criar os Rubies, os Tawnies, escolher aqueles vinhos especiais que dariam os famosos Vintages. O Gordon era, já de si, um homem de poucas palavras e aquela grande Sala de Provas com as bancas repletas de copos, parecia um santuário, vivia-se mais o silêncio, a meditação e alguma alquimia na arte da lotação1.

Assim passaram dez anos em que me apaixonei por este trabalho, pelos vinhos, pelas vinhas que visitava, pelas adegas onde fazíamos o vinho criando com ele uma grande cumplicidade.

Um dia o director da companhia anunciou-me que eu iria estudar para o Master of Wine. A minha reacção foi a pior. Naquele tempo, os MW’s, eram uns ingleses, de idade, que usavam fatos2 às riscas e gravatas com pintas e falavam muito bem (para não dizer snob) sobre os vinhos de Bordéus3. Não era bem isso que eu queria!

Não passou muito tempo para que eu, com uma caixa de 6 copos de prova numa mão e uma cuspideira na outra, me sentasse nos bancos da escola Londrina, Wine & Spirit Education Trust. Do silêncio da minha sala de provas e do perfume dos Tawnies velhos, passei à descrição exaustiva e barulhenta de vinhos de Novo Mundo e Velho Mundo, dos vinhos da margem direita e esquerda do Gironde, dos aromas a espargos4, frutos vermelhos, a violeta, especiarias, da acidez baixa, média e alta e o mesmo para os taninos e para o alcool, o grip e o crisp!

Foi a nova paixão agora a nível global, mas também uma namorada difícil de conquistar! Foram muitos anos de estudo, de viagens, de provas, de palestras, foram anos de uma riqueza enorme que me deram conhecimentos que noutro tipo de formação não me teria sido possível. No entanto, tenho que confessar e digo-o sem vergonha, o grau de dificuldade dos exames para o Master of Wine tanto a nível da prova como a parte escrita (a mais difícil em minha opinião) o tempo necessário para o trabalho, estudo e família, o espírito de sacrifício que a tudo isto obriga e que eu não o tive, levaram-me a desistir.

Admiro os recentes MW’s e apoio incondicionalmente os que se empenham agora em concretizar este desafio em que hoje o grau de exigência é indiscutivelmente muito maior que a uma década atrás.

Deixei a empresa de Vinho do Porto ao fim de 20 anos de trabalho porque a experiência que me deram os estudos para o Master of Wine fizeram alterar muito a minha vida profissional. Hoje trabalho para a maior empresa de vinhos em Portugal que faz vinho nas principais regiões vitivinícolas portuguesas, faz vinho na Argentina, Chile, Nova Zelândia e Espanha, é dona de três marcas de Vinho do Porto e a minha função dentro da Empresa é o de Wine Educator. Tenho que correr mundo a falar de todos estes vinhos, como são feitos e que castas utilizam, dos solos e climas de cada região e, naturalmente, explicar o que é um Vinho do Porto Ruby, um Tawny ou um Vintage.

Não tenho o MW à frente do meu nome mas devo (quase) todo o saber aos estudos que fiz enquanto estudante do Master of Wine. Afinal não foi tempo perdido!

Vasco Magalhães

Porto, 29 de Junho de 2012

 

Vasco Magalhaes_p

Saiba mais sobre Vasco Magalhães e entre em contato com ele através de sua página na Association of Wine Educators:

http://www.wineeducators.com/vasco_magalhaes.html.

 

 

Notas do Editor:

1. Lotar, Lotação: a técnica de combinar vinhos de diferentes origens. Também corte, blend ou assemblage. voltar

2. Fatos: o nosso terno, em Portugal. voltar

3. Bordéus: por incrível que possa parecer para alguns, é o nome da região de Bordeaux, em português. voltar

4. Espargos: aspargos, em Portugal. voltar

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