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Tornando-se um Master of Wine – Entrevista com Luiz Alberto, The Wine Hub

September 23rd, 2012 Rabiscaí! Checa os rabiscos.

Pouca gente é melhor conectada no mundo do vinho do que o Luiz, do The Wine Hub: produtores, especialistas e degustadores de alta patente em vários países acompanham o trabalho que ele vem fazendo pela internet e o cara está em todas – feiras, degustações, até num documentário sobre o vinho do Porto!

O Facebook, a maior referência atual em termos de redes sociais online, tornou-se pequeno para esse brasileiro que vive em Nova Jersey e passa boa parte do ano entre aeroportos do mundo inteiro, visitando regiões vinícolas: sua conta no site já não aceita novos “amigos”, o que, em teoria, quer dizer que Luiz tem ao menos 5.000 conexões digitais.

Enquanto prova e conversa, Luiz mantém o mundo virtual informado.

Em uma das rápidas passagens pelo Brasil para visitar a família, o Luiz concordou em sentar para uma longa conversa sobre o IMW, regada a boas garrafas e acompanhada de pratos surpreendentes no restaurante Clos de Tapas. Aos que vêm acompanhando o processo ou têm interesse em saber mais sobre como tornar-se um Master of Wine, seguem alguns highlights da conversa:

Como está o andamento dos seus estudos?

A forma de medir o andamento na verdade é assim: você entra no Programa e aí é testado. Você vai passar pro segundo ano, ou ficar no primeiro ano, ou eles vão te falar que você não deveria estar no programa – que eu saiba esses casos são raríssimos, mas já aconteceu. Quem fica no primeiro ano acho que é uma coisa de 25 a 30% dos inscritos. Eu passei do primeiro pro segundo já na primeira tentativa, o que quer dizer que eu posso tentar prestar o exame. Mas isso não quer dizer que eu vá agora – eu não vou, aliás.

Você não fez a prova teórica nem a prática ainda?

Você faz todo ano, só que não conta. Eles só te dão o feedback. Você não está prestando de verdade. Você vai lá pro seu seminário, passa seis dias aprendendo, tem os três tastings com 12 vinhos cada dia [assim como na prova oficial].

O seminário pode ser na Austrália, em Bordeaux ou em Napa. Em Rust, na Áustria, só o primeiro ano, se você passa ao segundo ano tem que escolher um dos outros três. Mas a partir do momento que você está no segundo ano, a não ser que eles mudem a regra por causa de mim, você pode ficar lá “pro resto da vida”, sem prestar exames. A partir do momento em que você presta, tem três chances, em cinco anos.

Como você decide o momento de prestar os exames?

Você tem que mandar essays pro seu mentor, continuamente – você pode mandar um, dois, três por semana se você quiser. Se você não estiver recebendo B constantemente nessas essays, não adianta nem tentar os exames. É o meu caso: eu tive um A até hoje, que foi uma coisa de inoculação com leveduras naturais e comerciais, eu estive num forum em Geisenheim na Alemanha.

Então tava fresco, eu falei sobre uma coisa superatual por uma boa parte, tirei meu primeiro A. Mas a maioria das vezes vem como C ou C+ quando eles tentam ser bonzinhos, mas C+ não quer dizer nada, você não passou do mesmo jeito que se tivesse tirado E. A maioria dos meus ainda são C, então não adianta eu tentar.

Na sua opinião, porque alguém deveria enfrentar um percurso de estudos tão duro e exigente como esse?

É difícil julgar e eu vejo que as pessoas entram por motivos muito diferentes. Principalmente se você está na Inglaterra e você vai entrar para a indústria do vinho, você precisa ter aquilo para subir na “escada” e sair dos níveis “mais juniors” para os “mais seniors”. É o natural para quem está na indústria do Reino Unido, para ser o comprador duma rede boa e tal você precisa ter [o título].

Nos EUA é um pouco diferente, essa realidade da indústria já não é tão conectada [com a titulação] então tem gente em cargo senior na indústria americana e não tem nada a ver com isso. Tá ficando mais importante, é claro, ter esse nível de conhecimento mas eu vejo que não é essa a conexão.

O meu objetivo foi querer aprender o mais rápido possível. Depois do que eu tive de companhia… Não tem jeito, a sua curva de aprendizado, ao invés de ser uma curva lentinha, aquilo te força. Então, a razão pra mim foi essa, de me empurrar, de querer aprender e me esforçar realmente.

Se você põe a barra aqui [faz sinal com a mão no nível da mesa] qualquer um pula, agora você põe a barra ali, meu chapa [e aponta para o alto]… Você tem que treinar pra cacete, fazer um mundo de coisas pra conseguir pular, senão não pula! Tem que ter preparação, não vai ter a sorte de dar um pulo e “Oh, pulei!”. Não tem sorte, ali realmente o nível é alto.

E é por isso que eu tenho um grande problema com outras coisas [cursos] que eu não quis fazer. Tem um único curso – e não é nem um curso de vinho, é uma formação sobre uma região – que eu fiz e eu achei ridículo passar naquilo lá! O que aquilo está me provando? Nada! Eles querem que você vire aquilo lá, ganhe aquele título. Então, no MW é meio ao contrário – no primeiro dia de curso, na verdade, eu me lembro bem: foi aquela coisa que parecia meio teatral, que eles tavam tentando um “que que você tá fazendo aqui? Cai fora! Você não tem chance!” Então esse desafio de ter que fazer melhor do que o que talvez eu consiga é talvez o meu maior motivo.

E quais são as coisas fundamentais com relação à dedicação e os custos?

O custo [do curso em si] não é nem tão alto, comparado com outras coisas que se pode estudar. O problema maior é você ter tempo para estudar. Eu tenho uma grande vantagem: durmo seis horas por noite e gosto de acordar bem cedo. Então 4, 4h30 da manhã você já me vê mandando e-mail ou trabalhando, ou às vezes só vou escrever um essay ou alguma coisa porque é uma hora em que não tem ninguém pra me perturbar…

Mas você precisa no mínimo duas a três horas por dia. Duas a três horas dão pra você escrever um essay de alguma coisa, dá pra ler um bom capítulo de um livro de alguma coisa que você quer. Porque são duas coisas, na verdade: uma é você ter o conhecimento e outra é expressar o conhecimento. O único jeito que você consegue é praticando muito – tem que escrever.

Outra coisa que é crítica é ter um mentor que seja BOM. Eu comecei com um mentor que tinha uma loja de vinhos, me incentivou, muito legal o cara, mas em nível de interação, você mandava uma coisa ele passava um mês pra te retornar… Daí eu conheci um cara numa viagem que eu fiz para a Alemanha e a gente ficou amigo e eu perguntei se ele podia ser o meu mentor.

Foi uma mudança total. Eu escrevo alguma coisa e ele em pouquíssimo tempo retorna, tem um interação muito boa. E ele tem talvez uma das taxas mais altas de mentees que viraram MW. Já tem uma meia-dúzia de estudantes dele que virou MW. Então o mentor eu diria que é uma coisa crítica do sucesso também.

“Se você põe a barra aqui qualquer um pula, agora você põe a barra ali, meu chapa…”

E para a prova prática, como você faz para se preparar? Além obviamente de provar muita coisa e tal, como é o estudo da degustação?

Tem que escrever muitas notas de degustação. Segundo eu entendo, é possível não passar no exame mesmo acertando todos os vinhos. Você pode falar “isso é Ribolla Gialla do Friuli” mas se você não disser o porquê, não interessa. E você pode passar o exame errando todos, chegando a uma conclusão que foi errada, mas todo o raciocínio que você elaborou é preciso. E isso você só faz na prática, pegar um monte de vinho e descrever, descrever, descrever.

E tem que começar a treinar a escrever, cara! Eu lembro no primeiro ano, eu não conseguia entender o que eu escrevi no fim que a minha mão já estava dando cãibra já de escrever tão rápido… Treinar fisicamente mesmo, você não consegue fazer a prova prática sem estar treinado em escrever.

Quer dizer, se você entra na faculdade de direito, certo, você provavelmente vai virar um advogado. Numa faculdade de direito 90% das pessoas que entraram vão virar advogados e no Master of Wine é o oposto, ou menos do oposto, menos de 10% – acho que agora a taxa de aprovação é de 7% dos que entraram.

Talvez a maioria das pessoas não tenha a concepção de que é tão difícil que às vezes você pode ser um tremendo profissional, mas tem aquela fasesinha de virar o seu C+ pra um B que às vezes não dá. Às vezes você sabe a parte teórica fantasticamente mas não é um grande degustador, não tem uma percepção tão boa. Há grandes profissionais, muito respeitados, que estudaram no Instituto mas não conseguiram o título.

Saiba mais sobre Luiz Alberto no artigo anterior à entrevista e descubra o que ele está fazendo no The Wine Hub.

  1. 25 de September, 2012 at 10:45 | #1

    Muito obrigado Bernardo! Espero que com essa entrevista tenhamos mais Brasileiros inspirados a iniciar o programa de MW.
    Grande abraco #winelover!
    Luiz

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