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“Encontro de Gerações” ou “O Futuro do Vinho no Brasil” – Parte 1

Há cinco anos atrás, Antônio Campos, um verdadeiro motor do vinho no Rio de Janeiro, teve a brilhante idéia de organizar uma mesa redonda unindo gerações de profissionais do vinho da cidade com dois convidados especiais: Jorge Lucki e eu. Em setembro de 2013, durante a terceira edição do mítico Zahil Saber Viver, nos reunimos numa sala do Copacabana Palace com taças à mão e bom vinho para “azeitar” a conversa.

Durante a sessão, tentei documentar da melhor forma os relatos e a troca de idéias que, me lembro bem, poderia ter durado dias. Adoraria ter notas complementares dos participantes para deixar o conteúdo abaixo um pouco mais completo (sim, é uma intimação, senhores panelistas) mas espero que minhas notas possam interessar aos que não estavam por lá e reativar o bate-papo.

Alguns pontos fundamentais nesta conversa continuam valendo (ou precisando valer) até hoje – o uso descuidado (ou excessivo) de descritores aromáticos com público em geral, a empáfia dos profissionais, a necessidade de simplificar certas coisas sem esvaziar de conteúdo o vinho e, acima de tudo, a falta de fórum e de troca de experiências que vivemos num mercado extremamente competitivo. 

Adoraria mais ainda que fosse possível realizar uma sessão dessas em São Paulo e uma na minha territa natal, Belo Horizonte, além de um revival no Rio. Quem se anima aí a organizar essas?

Organização: Antonio Campos
Moderação: Cristiana Beltrão
Convidados Especiais: Jorge Lucki, Bernardo Pinto.

Participantes 
Infelizmente, muitos convidados e confirmados não estiveram presentes. A conversa, porém, fluiu de modo fantástico com essa turma excelente: 

Leonardo Noma – Unique Magazine, cursos pela ABS-RJ.

Alexsander de Oliveira – sommelier do grupo CT. Trabalha com vinho há 10 anos. Cresceu numa família portuguesa e o vinho fazia parte do dia-a-dia.

Cecília Aldaz – argentina de Mendoza. Nas casas mendocinas havia videiras, brincava de fazer o próprio vinho. Estudou Enologia, morou na Suíça, Alemanha, Turquia. Trabalhou com importadoras e em vinicolas. Se apaixonou por um brasileiro e ficou no Rio. Cursou ABS. Responsável pelas cartas do “Oro” e do “Pipo”.

Luciana Plass – formada em Gastronomia e Vinhos em Londres. Trabalhou com Danusia Barbara, colaborou no Wine Report com Alexandre Lalas.

Marcelo Torres – entrou no vinho em 91-92, sob influência de Dânio Braga. Ao redor de 93 inaugurou seu restaurante. A adega particular foi transferida ao Locanda, onde amigos do Danio podiam armazenar seus vinhos.

Sergio Maranhão – Bebia Liebfraumilch quando adolescente. A partir dos 20 começou a estudar vinho. Frequentou cursos de enófilos das ABS RJ e SP. Cursou WSET. Escreve na Unique Magazine, começou com uma pequena escola em Niterói recentemente Unique Vinhos.

Jorge Lucki – da primeira geração de profissionais do vinho. Não havia no Brasil cursos de vinhos em seu tempo. Começou a estudar em 1975 lendo livros, em francês. Foi estudar na França (Academie du Vin de Paris, de Steven Spurrier, cursos na Borgonha); largou a engenharia para se dedicar ao vinho.

Dionísio Chaves – primeiro contato com vinho e bebidas foi terrível: Sangue de Boi aos 12 anos, apenas três copinhos deram um porre terrível. Jogou futebol profissionalmente (Flamengo, Nacional de Montevideu), serviu exército e ao sair queria se mudar para os EUA. Trabalhou no Guimas como ajudante de garçon, onde a mãe cozinhava comida nordestina, com o objetivo de juntar dinheiro para se mudar. Apoiado por Chico Mascarenhas, sócio do restaurante, em 93 começou a trabalhar. Fez um curso breve, apenas 3 aulas, com Celio Alzer; começou a ler sobre vinhos a partir de então, com um presente do Mascarenhas. Hoje é sócio de 3 restaurantes. “Gostava mais da função de sommelier, hoje tenho de gerir os restaurantes”. Se manter atualizado com vinhos é um custo, em função do trabalho.

Alain Costa é sócio da Caviste, com 4 lojas no Rio de Janeiro. Seu pai foi distribuidor da Expand por muitos anos e, em 2001, quando Alan estudava nos EUA, agendou duas visitas para o filho: Mondavi e Opus One. Aos 20 e poucos anos, sem contato com o vinho , não sabia muito o que estava fazendo, mas terminou por entrar no negócio com o pai. Nos últimos 11 anos vem aprendendo sobre vinhos para administrar as lojas.

Pedro Hermeto – começou com vinhos com a família no Restaurante Aprazível. Convidado por Luís Henrique Zanini, da Vallontano Vinhos, foi ao Sul conhecer um novo projeto sem nome,  de apenas 2 hectares. Participou da colheita e ficou envolvido com o projeto. Desde 2008 é sócio de uma pequena vinícola, a Era dos Ventos.

Cristiana Beltrão – seu pai colecionava vinhos durante os anos 80, o que despertou seu interesse: começou a estudar e provar, hoje tem quatro restaurantes do grupo Bazaar na cidade.

Ouvintes
Raíssa Cavaignac – Documenta, assessoria de imprensa.
Aline Gomes – Documenta, assessoria de imprensa. 8 anos de eventos e degustações como assessora.
Michele Zehil – convidada especial e consumidora de vinhos.


Primeira Parte – O “Antes” 

Cristiana – o que era vinho no Brasil nos anos 1970?

Marcelo – era aquilo: garrafa azul, Chandon Branco, etc.

Jorge – houve coisas antes!

Dionísio – 1970 muito champagne e Lafite, elite que bebia jóias.

Jorge – mercado evoluiu justamente porque o vinho deixou de ser de elite. Se tomava Chianti Rufino em fiasco, Valpolicella Bolla. Vinho do dia-a-dia era o Cousiño Macul ou vinho nacional Granja União, Merlot de preferência.

Cristiana – Antonio nos contava (em conversa de preparação para o encontro) que os vinhos entravam no Brasil com foco/pelas mãos dos imigrantes (PT, IT). A partir do governo Collor, a abertura do mercado permitiu “criar um mercado”, através de uma explosão de grandes vinhos. As pessoas muitas vezes queriam consumir coisas renomadas, caras, famosas e só agora estão começando

Jorge – tomávamos Granja União, Château Duvallier. Almadén não: tinha birra desde o começo. Surgiu já nos anos 1980. O divisor de águas foi 1991, abertura de mercado somado à publicação do Estudo de Harvard sobre os benefícios para a saúde. Muita gente que bebia uísque bandeou-se para o consumo do vinho.

Marcelo – quando abriu o Giuseppe, o primeiro restaurante, no centro, só trabalhava para almoço, só havia garrafas de whisky em cima da mesa (1993). Os produtores escoceses estão buscando hoje contra-atacar em função da perda de espaço no mercado. Provavelmente foi o principal fator a questão da saúde. O consumidor queria o STATUS de beber a SUA garrafa, não uma dose.

Cristiana – quando abriu o Bazzar em 1998, o whisky dominava, mas ela deu o primeiro passo junto com Marcelo e outros ao servir vinhos em taça; eram questionados ao usar taças grandes e servir vinhos em quantidades adequadas, mas que eram vistos como meia-taça. Tinha um sommelier, carta de 700 vinhos, Célio Alzer era o consultor. Havia uma diferença grande de conhecimento entre o consumidor e o pessoal da indústria.

Dionísio – 1997, após trabalhar no Locanda, carta do Rapsode; Acompanhava o Célio nas palestras, aulas e degustações (Laguiole), verticais importantes com apenas dois anos de profissão. Em seu tempo, trabalhava pesadamente porque vender cada garrafa era um grande desafio: clientes queriam whisky ou outras coisas. Pedia aos proprietários para servir pequenas doses de amostra, para atrair consumidores. Piano bar, taça de rosé para as mulheres, que eram responsáveis por “convencer” os maridos a escolher vinho.

Cristiana – década de 2000: estudos na ABS eram quase “compulsórios”.

Alex – entrou em 2003, já viu o cenário modificado, sem a presença forte do whisky. Hoje é nulo: novos consumidores não buscam whisky. Durante a “primeira história” do vinho, sua importância era social e não alimentar. Talvez no sul, região produtora, haja diferença? 2002-2003, caro era bom. Hoje o consumidor escolhe o vinho pelo valor, não o preço. A falta de uma realidade “social” do vinho atrofiou o mercado?

Em mais alguns dias, a transcrição do restante da conversa, com o debate sobre o momento presente (2013) do mercado.

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