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Do Fundo do Baú – Charutos!

A cada dois ou três anos eu fumo um charuto – e adoro, na hora, até lembrar porque levo dois anos pra aceitar fumar de novo. Fumaça não é minha praia, acaba com meu olfato, minha respiração e com o sabor natural da minha boca. Mas, num passado obscuro e distante, eu me dediquei até bastante a entender e aprender sobre charuto e tenho boas lembranças dessa época.

Procurando outras coisas nas gavetas mais baixas do meu pc eu achei hoje duas pérolas em forma de notas de degustação. O texto às vezes fica meio rebuscadim demais da conta (combinação de obssessão linguística com somelelê em formação dá caca) mas, gente – é tão um retrato de um momento, um relato fossíl de uma Peripécia véia, que eu achei que merecia compartilhar.

Pra completar o nível obsessivo de colecionismo e completismo, achei em outra gaveta digital imagens da degustação. Até eu fiquei com medo.

De bônus, tem notas de degustação de cafés e whiskies, num estudo de harmonização (!) com os charutos. Um salve ao Gustavo Giacchero, sommelier comparsa que deu gás (sem trocadalho) aos estudos na época e em especial ao Ruimar, mestre máximo do charuto que serviu de mentor na empreitada.

Olhaí:

Estudo de Charutos – 05/11/06

1 – Jô Soares Corona – Ilhas Canárias

As Canárias são uma espécie de entreposto da Espanha na costa norte-africana. “Inventores” do charuto moderno, os espanhóis são os maiores consumidores do mundo de Habanos e existe uma íntima relação entre os charutos e as touradas.

Pré-Combustão
Charuto cilíndrico e uniforme, com cabeça arrendondada achatada. O miolo parece ser uniforme ao tato, sem falhas de preenchimento.

Capa clara, com a área perpendicular à frente da anilha mais clara, aparência de queimado pela luz. Está um pouco ressecado.

Cacetilda, dá pra ver mesmo a marca da anilha! (mesmo com essa belezura de foto feita pelo meu velho Palm)

 

A capa é bastante uniforme, muito nervurada, com um pequeno furo feito por algo mais duro no miolo, fazendo pensar na ponta de um talo.

Movendo a anilha confirmo que a capa está queimada pela luz, pois por baixo da cobertura do papel a cor é mais escura, uniforme.

Aromas delicados e agradáveis, que fazem pensar em noz moscada e pimenta.

Ao cortar, o interior da parte menor se esfacelou. A riqueza aromática porém se ressalta: algo de estábulo, tabaco e pimenta do reino.

Tragar o charuto apagado é muito agradável, envolvendo a boca com os aromas delicados. Ressalta-se na boca uma sensação de frescor e um sabor mentolado.

Combustão
Acende-se com uniformidade e aos primeiros tragos mostra muita ligeireza, aromas suaves e no início mantém a sensação de mentolado.
Mostra-se um amargor não muito forte e a variedade de aromas decai sensivelmente.
A queima parece uniforme à primeira vista.
É muito ligeiro, suavemente picante. Na boca não é denso, não mostra textura. Perfume a incenso.
A cinza parece bem clara (magnésio?).
Muito ligeiro, traguei sem perceber.
A capa cedeu com um estalo ao segurar o charuto com os dentes.
Suavíssimo adocicado na boca, que em combinação com o amargor faz pensar em amêndoas.

Dá pra ver nos papilim as anotações originais que eu diligentemente digitei algum dia. Obrigado, Bernardo com TOC do passado, o Bernardo com TOC do presente está feliz em ler isto.

 

Café Expresso Santa Sophia
Bastante aromático, com um toque de chocolate no aroma. Creme denso, no início me parece ressaltar o dulçor do charuto. Acidez e salinidade aparecem em pouco tempo.

A cinza se solta do charuto com cerca de 2,5 cm de comprimento.

O tamanho do charuto me parece muito agradável. Não sobreaquece, se encaixa bem na mão. Em 20 minutos não fumei ainda todo o primeiro terço.

Aromas terrosos aparecem depois de algum tempo, talvez ressaltados pelo café. Algo de caramelo permanece na boca.

Café 2 – Santa Sophia Premium
Mostra uma delicadeza olfativa maior, aromas de pão.
Na boca muito mais macio, com a acidez um tanto mais amena.
Creme ainda mais espesso, sabores mais complexos, faz pensar em tempero de carne (!?) tipo chimichurri.

O charuto mostra-se mais perfumado no ar e a cinza parece mais escura pela metade (30 min.)
A cinza se quebra de novo com mais 2,5 cm. Ela é bastante serrilhada, com linhas quase paralelas.

Geral:
Charuto delicado, pouco aromático, mas que imagino ser agradável para fumadores inexperientes ou ocasionais. Não irrita, não aquece de maneira excessiva, tem queima uniforme e aromas discretos mas agradáveis. Não encanta particularmente, mas sem dúvida não agride. Sinto a sensação de cabeça leve logo depois de começar a pensar em apagar o charuto. Os aromas da queima no ar continuam agradáveis, mas a fumaça e o sabor começam a me incomodar.

 

Estudo de Charutos – 07/11/06

2 – Avo Domaine no. 20 – Small Perfecto
(é um Figurado, ou seja, de formato irregular. São considerados de alta qualidade, por serem de difícil elaboração)

A República Dominicana é considerada a única fonte no mundo de charutos que podem, de alguma maneira, competir em qualidade com os cubanos. Os seus bons charutos dependem do conhecimento de torcedores e vegueros com experiência em Cuba, sementes com origem em Vuelta Abajo e condições de clima e solo ideais, bastantes similares às cubanas. É o maior produtor do mundo em volume.

Avo Uvezian, o nome por trás da marca, nasceu em Beirute e é músico filho de músicos. Conheceu os charutos em viagem a Porto Rico e se apaixonou ao ponto de trocar de profissão. Em associação com Hendrik Kelner começou sua linha de dominicanos em 1988 e ao atingir o ápice do reconhecimento do mercado mundial vendeu sua marca ao grupo controlador da marca Davidoff.

O tabaco é cultivado no Valle de Cibao, considerado melhor região da RD para o cultivo. Suas folhas são do tipo “Piloto Cubano”, de sementes originárias de Vuelta Abajo, Cuba. As capas são freqüentemente do tipo Connecticut Shade. O solo da região é arenoso e fértil e o clima é adequadamente úmido.

Pré-Combustão
Charuto em formato de torpedo, com as duas pontas afuniladas, sendo a cabeça mais arrendondada.
A capa é de cor marrom escuro, tom de chocolate ao leite. É sedosa e uniforme, com pequenas variações de coloração, em especial seguindo as nervuras da folha.
Ao tato parece firme e uniforme, não está ressecado, mas um pouco duro.
No nariz mostra claramente amônia, mas também um perfume almiscarado que punciona o nariz por dentro. Estábulo. (Inclusive na loja, quando retiramos o celofane.)

Ao cortar, o interior da parte menor se esfacelou, como com o Jo Soares. O perfume de terra molhada se eleva e faz lembrar castanha do pará (terra molhada como na castanha após ser descascada).

O trago apagado ressalta na boca a terra molhada, algo de mentolado também. O adocicado toca vários pontos da boca.

Combustão
A ponta se queima com um cheiro de fumaça, sem perfume. Ao acender-se de fato, começa a perfumar o ar. O amargor é a primeira sensação a se mostrar, mas não há queimação nem ardor em nenhum ponto da boca. O perfume no ar é muito agradável.

O sabor envolve toda a boca com delicadeza, o amargor se ressalta ainda mais, fazendo sumir quase todo o dulçor. TODA a boca está envolvida pelos sabores, de maneira muito agradável e surpreendente.

Scotch Whisky – Clan MacGregor – Vol. Alcoólico 40% – Sem gelo
Amarelo-âmbar claro. Aromas bastante frutados, cereja. Na boca mostra toda a picância alcoólica, mas boa sedosidade e fruta.

O trago do charuto resulta muito menos amargo, com sabores a tabaco mais evidentes. Com mais ou menos 10 min. de combustão, a queima começa a ficar desuniforme, com a parte de baixo queimando mais lentamente. A cinza é clara, de cor uniforme.

O whisky ameniza o charuto, mas também parece ocultá-lo um pouco. O dulçor é agradável, em combinação com o charuto, que fica bastante agradável e macio. Ressalta-se novamente a terra molhada.

Scotch Whisky 2 – Johnnie Walker Black Label (12 anos) – Vol. Alcoólico 43% – Sem gelo.
Amarelo-âmbar escuro, com traços alaranjados. Bem menos frutado.
Na boca, mais denso e untuoso, MUITO menos picante, a pesar do teor alcoólico mais alto.

Ressalta mais uma vez a terra e os aromas de estábulo [do charuto].
A queima continua desuniforme, a cinza está muito bonita.
O ponto da capa que parecia reter a queima cedeu, entrando no segundo terço do charuto.

Me parece que o Black não contribui para a degustação. O MacGregor, talvez pela fruta, oculte mais o amargor e ressalte a delicadeza.

A cinza não se solta do charuto, mesmo com 3,5 cm.
A sedosidade e o dulçor do Avo se mostram mais e mais.
25 minutos de degustação: a ponta na parte mais afunilada da cinza cede ao toque com o cinzeiro, mas um pedaço grande da base, com quase 2 cm continua preso com firmeza.

Primeira sensação de leveza na cabeça.

Aromas de terra estão sempre em evidência e algo mineral aparece mais acentuadamente.
Sinto o calor do charuto nos dedos e a fumaça se mostra mais quente na boca, mas não queima nem incomoda. Os aromas e sabores se mantêm intactos.

O dulçor volta a se ressaltar e no nariz sinto o perfume de mel. É bastante delicado, sem brutalidade e sem agressividade no ar.
A menta reaparece na boca. Meio charuto em 30 minutos.
Os aromas terrosos são os mais presentes em todo o tempo de combustão. O perfume faz pensar de novo em incenso. Menta ou cânfora?

Conclusão: Os aromas de menta e de incenso me parecem na verdade cânfora.
Cada vez mais presente a cânfora, o frescor da cânfora que me fazia pensar em menta.
Muito gostoso o charuto, envolve todo o palato. Sabor de alguma verdura amarga. Chicória?
O frescor na boca se ressalta mais e mais. No ar do quarto o perfume é canforado.

O miolo queimou mais rápido que a capa, caindo no cinzeiro e deixando uma casca. Mais uma vez, a parte de baixo queimou mais devagar.
O charuto está bem curto e continua agradável. Na boca a terra, o toque mineral continuam. A cânfora some no sabor, mas o perfume continua no ar.
Com quase 1 hora de combustão, ainda não pensei em apagar, apesar do charuto continuar aquecendo meus dedos. O dulçor volta a aparecer na boca no final.

Após a combustão ficam na boca:
Almiscarado,
Dulçor,
Amargor suave.

Geral
Charuto rico e complexo, muda muito no decorrer da combustão, é muito agradável e nem ao menos irrita a boca. Algumas vezes algum sabor ou aroma se evidenciou sem que eu conseguisse identificá-lo, mas o frescor quase constante da cânfora (logo ao acender e em toda a segunda metade) foi uma surpresa muito agradável.

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